Cinema

[Crítica] Mais Um Ano

Compartilhar

another-year-ver5

Orquestrando mais um filme multi nuclear, Mike Leigh mostra em Mais Um Ano, de maneira agridoce, a rotina de personagens vivos, verdadeiros e repletos de nuances, que transmitem para a tela suas frustrações e sonhos, dos mais intensos aos mais simples. O roteiro, do próprio diretor, aborda temas corriqueiros, usando os costumes do homem comum para poetizar o respeito do livre existir.

O início do filme mostra uma consulta de Janet (Imelda Stanton) junto a uma profissional de saúde, que trata de ouvir os desabafos de uma mulher idosa sem perspectivas positivas. Logo, o núcleo hospitalar se estende em uma estrutura que lembra bastante as novelas brasileiras, ainda que os diálogos no filme contenham muito mais substância. Dentro desse contexto, é apresentada a personagem Gerri (Ruth Sheen), que tem no auxílio social sua motivação maior, função que repercute diretamente em sua relação matrimonial com Tom (Jim Broadbent), sendo este o casal mais equilibrado da trama, fonte de inspiração para a maior parte das pessoas, cujas almas são absolutamente desoladas.

O humor utilizado é de costumes, mas não calcado no nonsense como parte da escola de comédia britânica, ainda que haja doses cavalares de situações limites. A parte da história ligada a Mary (Lesley Manville) é a que mais flerta com a melancolia, pelos claros problemas de relação que tem, mesmo que suas feições sejam belas, especialmente para a idade que ostenta.

A divisão da história por etapas de estação visa emular as mudanças inerentes que a natureza e o Divino fazem o homem sofrer, seguindo o intuito de demonstrar deboche com a constante questão do apequenamento do homem diante da sua vida. A existência é estudada através dos detalhes dos relacionamentos, em um aprofundamento não muito exacerbado; tampouco não há monopólio do tempo em tela, para qualquer das partes. A estratégia em retratar humanidade está em visões comuns, apelando para o genérico, mas sem parecer frívolo.

Há uma predileção pelo proselitismo, como se a fala excessiva fosse uma válvula de escape para os momentos constrangedores. Curioso é que o aspecto acaba retratando um pouco da qualidade do filme, que começa em uma proposta interessante, mas que vai perdendo força e fôlego ao se aproximar de seu desfecho. Mais Um Ano tem uma métrica retilínea, sem muitas surpresas, emulando até o enfado e tédio comuns de outras comédias românticas bem menos inspiradas que o início do longa.

Filipe Pereira

Filipe Augusto Pereira é Jornalista, Escritor, quer salvar o mundo, desde que não demore muito e é apaixonado por Cinema, Literatura, Mulheres Rock and Roll e Psicanalise, não necessariamente nessa ordem.
Veja mais posts do Filipe
Compartilhar