Crítica | Mandy

Do começo sem falas, apenas com um tema musical melancólico passado por uma voz rouca cantando, Mandy, do canadense Panos Cosmatos, abre sua história de forma poética, mostrando cenas que variam entre planos que contemplam a paisagem do Noroeste Pacífico sendo cortada por alguns homens e detalhes em pinturas e gravuras de animais selvagens.

Red Miller e Mandy Bloom têm uma vida em casal bastante simples e terna. Nicolas Cage e Andrea Riseborough demonstram uma afinidade muito grande enquanto par e o seu amor é observado por uma utilização contínua de cores luminescentes, variando entre tons de vermelho, rosa e lilás. É como se os apaixonados tivessem suas vidas iluminadas por luzes de faróis, por objetos mecânicos tão simples mas que conseguem produzir um lindo efeito visual emulando assim as características da rotina de ambos, que passam seus dias no campo de maneira pacata, observando um ao outro com a admiração típica de jovens casais. Seus dias são embalados por um trilha repleta de sintetizadores, conduzidos na música de Johann Johannsson, que embala a espera dos personagens por uma tragédia que se aproxima.

O desenrolar da historia de Cosmatos é lenta, os detalhes são mostrados gradualmente, e ao público resta aguardar a chegada dos acontecimentos atrozes que virão, onde a crueldade imperará escondida através de um discurso crente em uma entidade maior. Em alguns momentos, um letreiro vermelho salta a tela um dos temas musicais Children of The New Dawn, sem explicação alguma, simplesmente ocorre.

O culto liderado por Jeremiah Sand (Linus Roache) não tem suas origens e intenções explicitadas. Tudo o que se sabe sobre seu modo de operar é o que aparece em tela, sem qualquer preparação prévia ou explicação sobre os métodos. O que se assiste é um conjunto de ritos que lembram as descrições de ritos de magia negra mas com detalhes semelhantes aos que os católicos utilizavam no cuidado as “bruxas” durante à época da inquisição.

Há uma clara influência do cinema de Ken Russell na obra, seja no niilismo pautado na fantasia sádica dos detratores de Red e sua amada, bem como no modo de contar a história grave por meio de belas imagens. Mesmo quando o personagem de Cage consegue fugir do cativeiro onde estava para então urrar de desespero pelo que viu há um tom poético, um registro naturalista de um homem sofrendo, coberto com seu próprio sangue, se valendo de bebidas alcoólicas fortes para se anestesiar não de uma dor física, mas sim de dores na alma.

Apesar de não ser uma peça teatral, Mandy tem sua história dividida por atos, e o terceiro deles é bem diferente, com uma violência mais explícita, onde a vingança de Red finalmente ocorre e onde os pecados dos malfeitores têm sua retribuição justa. Esse período destoa um pouco do restante da atmosfera idílica do filme.

O acerto de contas do personagem com o líder da seita consegue reunir os dois tipos de caráter do filme, tanto o sanguinolento quanto o que dá vazão a uma linguagem mais hermética e rebuscada. Apesar de o desfecho não ser tão bem construído quanto o início e o fim, toda a jornada acompanhada no filme de Cosmatos é uma experiência única, em um retorno de Cage aos papéis sensíveis que o fez ser premiado nos anos noventa, unindo também a violência que fazia nos filmes de ação que protagonizava, claro, com uma agressividade muito mais visceral neste. Ao final se percebe que a dor da perda e a ilusão andam juntas no imaginário do homem que não tem mais nada e poucas vezes esse sentimento foi tão bem retratado em tela como aqui.

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