[Crítica] Manifesto

No começo do filme de Julian Rosefeldt, há um resgate da definição do termo manifesto. A expressão, que também intitula a produção, é seguido de um monólogo de Cate Blanchett, atriz principal e interprete dos 33 seguimentos que serão mostrados ao longo dos pouco mais de 90 minutos de duração. A intenção do diretor é dedicar sua obra a reverenciar diversas formas de representação da arte, passando também por homenagens a cineastas contemporâneos como Lars Von Trier e Jim Jamursch.

No início, há uma introdução que mostra um resumo dos papéis que Blanchett executará em tela. Apesar de um pouco didático, é curioso assistir os variados papéis em sequência, mesmo que esse momento seja parecido com um videoclipe pelos cortes rápidos. O roteiro de Rosefeldt se dedica a desconstruir a ideia do capitalismo como forma de ideal econômico, tanto de maneira didática, como utilizando o recurso da quebra da quarta parede como atrativo.

Manifesto se dedica a exposição contemplativa da sociedade entrando em colapso. Os monólogos de Blanchett variam entre a ação direta, com direito a atriz olhando diretamente para a câmera, falando de modo exuberante o forte roteiro, ou discutindo com outras pessoas, um palanque para os temas propostos. Por mais que a descrição feita nesta crítica faça com a produção pareça burocrática, ainda mais sendo um longo monólogo, há uma forte verve poética bem estruturada.

A proposta da dupla foi realizar um filme político ao estilo de Andrei Tarkovski, também associado ao típico movimento ensaístico do neo-realismo cinematográfico. Nota-se também uma forte influência de Federico Fellini e Michelangelo Antonioni em alguns dos números. Por motivos óbvios, algumas das transformações da atriz fazem lembrar seu trabalho em Eu Não Estou Lá, filme de Todd Haynes onde ela e outros artistas personificam Bob Dylan. Porém, ao contrário do filme dedicado ao cantor folk, a intenção não é prestar uma homenagem, mas produzir uma espécie de caricatura social.

O filme foi cuidadosamente estruturado para valorizar os dotes de Blanchett. Em alguns personagens, seu talento é extremamente exigido, resultando em um desempenho exuberante, um tom acima do visto na interpretação múltipla de James McAvoy em Fragmentado. Há uma semelhança, porém, entre as duas produções: ambos possuem uma ambição maior do que a qualidade que, de fato, cada um apresenta.

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