Crítica | Marcha Cega

O filme de Gabriel Di Giacomo utiliza como ponto inicial de seu filme, Marcha Cega, a figura de Sergio Silva, um fotógrafo que ficou cego após um tiro da truculenta Polícia Militar de SP em meio a uma manifestação política que ele cobria. Antes mesmo de mostrar isso, há cenas da polícia desfilando, cantando o hino da Independência do Brasil e a promessa de proteger os entes do povo. Não foi o caso de Sergio, que perdeu o sentido que fazia sua profissão ser útil.

Os depoimentos de manifestantes políticos que foram (e são) perseguidos, os intelectuais e ex-membros políticos de secretárias de segurança falam sob um cenário negro, remetendo a obscuridade desses processos e da cegueira propriamente dita. A transição da maior parte das cenas é composta por uma tela preta que fica por alguns instantes, e isso normalmente é um recurso ruim quando usado em documentários, aqui há função narrativa, seja por imitar a perda da visão, no caso de Sergio, seja pela conversa que tem com os muitos casos de pessoas que tiveram seus olhos alvejados em trocas de tiro, seja de borracha ou mesmo os projéteis metálicos.

As falas denunciam os atos de abuso de autoridade, unido a algumas cenas onde descrições dos manuais das polícias, como coibir manifestantes e agir com a violência é bastante comum. O argumento da maior parte dos entrevistados é que a mídia alternativa é importante, pois sem ela a pauta dos grandes veículos de imprensa ocorreria basicamente culpando ao atos de protesto como mera oportunidade de vandalizar os bens públicos e espaços urbanos. Os veículos que mostram o povo apanhando são os  que fazem com que as TVs e a grande imprensa passem a tratar o sujeito comum como vítima da ação truculenta do Estado, mostrando afinal que a violência normalmente vem de cima.

Ao final de Marcha Cega, aparecem letreiros que anunciam a tentativa de contato com as assessorias de Alexandre Moraes – ex-secretário de segurança e atualmente ministro do STF -, Geraldo Alckmin – governador de São Paulo à época -, e a direção de núcleos das polícias citadas ao longo dos 88 minutos de corte do documentário, e todos foram ignorados, alguns de maneira mais veemente outros de forma polida. A oportunidade de fala oficial foi dada e simplesmente ignorada, e a ironia mora aí, pois essa é a atitude normalmente utilizada pelas autoridades, que ignoram sumariamente os pedidos e exigências do povo, só respondendo quando lhe é conveniente.

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