Crítica | Maria Madalena

O universo semântico da religião cristã é extremamente enriquecido por simbolismos, e praticamente insondável em suas diversas significações latentes. No campo do cinema, fica difícil lembrar de um cineasta que melhor trabalhou elementos religiosos que o dinamarquês Carl T. Dreyer em seus filmes colossais como em Dias de Ira, ou no seminal A Palavra. Nos títulos aqui lembrados, ou ainda no brasileiro O Pagador de Promessas, o peso e o valor de uma religiosidade onipresente atuando sobre o que é humano chega a ser plenamente inseparável da própria dimensão atmosférica, tanto realista quanto lúdica que esses grandes filmes do passado carregam, e por conta disso, continuam influenciando e insuflando trabalhos de arte contemporâneos na exploração pelo sagrado, nas suas mais variadas interpretações, ao longo de séculos de releituras criativas bem-sucedidas, ou não.

Dito isso, é possível notar uma digressão e um certo abuso dessa mitologia nesse Maria Madalena, de Garth Davis, diretor do super estimado Lion: Uma Jornada para Casa. Para David, a religião é um desafio constantemente posto à prova, quase um sacrifício dos homens para com um sentido maior, o que rivaliza com a imagem histórica da mulher homônima, vulgo prostituta como passou a ser mais reconhecida que cruzou o caminho do próprio Cristo, em tempos de conflito para ambos. O filme de 2018 trata de sondar a vida pré-envolvimento da mulher com a figura superior cujo contato a transformou num dos ícones femininos mais ligado ao filho de Deus. Pela primeira vez no Cinema, Madalena passa de coadjuvante da história mais famosa de todos os tempos, para a protagonista dos seus desafios pessoais, seu próprio drama e do seu próprio ponto de vista melancólico sobre o tempo presente que viveu, e resistiu, tal qual o homem que tanto admirou.

Longe de convertê-la numa Jorna D’Arc, o que talvez não seria de todo mal para o empoderamento da personagem, a Madalena de Rooney Mara sente o peso da sua vida como se o aceitasse, como se estivesse ligada permanentemente ao divino; em algo extra mundano que a acalentasse além das agruras da sociedade – em seu primeiro contato com Jesus e seus apóstolos, o vento sopra como se a conduzisse para onde ela anda ao encontro do mar, para onde todos se dirigem. Nesses breves momentos, a expressão da espiritualidade se funde com o avanço da narrativa que, ao final, carece de atitude, de substância, invariavelmente abatida por sutilezas em excesso. Uma sensibilidade que parece indicar o medo do cineasta de investir impactos emocionais em momentos de grande potencial polêmico.

Uma encenação a favor dos atores, acima de tudo, servindo mais a eles que a história e suas situações, entre inúmeros cenários barrocos e áridos sempre sob uma luz azulada e leitosa, assumindo nessa iluminação a presença do divino. Mara e Joaquin Phoenix, ótimo como sempre, estão contidos e hiper sóbrios no papel do messias e sua seguidora, mas limitados pela própria iconicidade intocável dos seus papéis. Nesse exercício de reler pela enésima vez uma situação fadada ao conflito, e a tragédia, o lado interessante do filme nunca é revelado, sendo assim mais um suspense histórico que o drama que pode se vender para o público que compra sua imagem de “obra devota a figuras emblemáticas”, cujo verdadeiro lado expressivo e simbólico o filme esvazia a cada cena, preferindo manter seu potencial enrustido a cada instante.

Claro que um tema desses, tão difundido e sensível por toda a humanidade afora, é um desafio e tanto para os atores e para a sua direção, apática e quase inexpressiva, gélida e beirando a preguiça – a sensação é essa em vários momentos –, deixando sempre o peso de algumas sequências falar por si só (saudades de Martin Scorsese), como quando Cristo opera seus milagres e revive um homem já ligado a suas moscas fúnebres, e terminais. Desses momentos já esperados, e mal aproveitados, até a inevitável crucificação tocante do ícone, o filme falha em discutir o poder da fé, e tenta reviver sua própria simbologia para torná-la valiosa e o mais útil possível em prol do desdobramento frouxo da trama. Nisso, Maria Madalena acaba caindo no lugar comum das adaptações bíblicas que se amontoam na tevê, nessas celebrações de fim de ano.

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