Cinema

Crítica | Matadores de Velhinha (2004)

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74 - The Ladykillers (Matadores de Velhinha)

Um grande problema dos grandes artistas é que sempre após uma grande obra, as atenções se voltam para a próxima com a inevitável comparação de qualidade entre ambas. Desde fins dos anos 80, os Coen se mantiveram em produções de altíssimo nível, mesmo em gêneros diferentes. Porém, no início dos anos 2000, a famosa crise parece ter chegado, dando sinal de esgotamento em “O Amor Custa Caro” e comprovando isso definitivamente agora com The Ladykillers (Matadores de Velhinha).

Adaptação de um filme de 1955, aqui traduzido como “O Quinteto da Morte”, a história gira em torno do professor Goldthwait Higginson Dorr (Tom Hanks), arquiteto de um grande plano para assaltar um cassino. Ele aluga um quarto na casa da senhora Munson (Irma P. Hall), uma simpática velhinha, onde convoca seus comparsas para o plano de ação, que era o de disfarçar o ato transformando o grupo de ladrões em um conjunto musical. A situação se complica quando a senhora Munson descobre o plano, o que faz com que os ladrões tenham de alterar os planos várias vezes, até chegarem a conclusão que deveriam matá-la.

Caracterizado novamente no sul dos EUA, o filme dá espaço a toda a musicalidade negra, assim como em “E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?”, porém, na música gospel, com toda a energia característica dos cultos evangélicos daquela região. Também há no filme as características clássicas dos Coen, como o humor negro (porém, aqui um pouco gratuito e deslocado), os erros que avançam a história e os estereótipos clássicos, porém, o elenco dessa vez não ajuda muito. Se antes tínhamos Frances McDormand, agora temos o irritante e previsível Marlon Wayans, trazendo o lado negativo dos estereótipos, ao contrário daqueles que favorecem a história e familiarizam o espectador com o ambiente, como a personagem da sra. Munson.

Apesar de ter um arco fechado, a história passa sem que envolva o espectador nela. O filme é plano em todos os aspectos e não consegue sensibilizar. Apesar de garantir uma ou duas risadas por conta da boa atuação de Tom Hanks, a tentativa um tanto quanto rasteira de se apelar ao humor de “tipos” garante mais olhadas no relógio do que diversão, na curta duração do filme (apenas 1h36). O filme também falha na tentativa propositadamente simples de emplacar uma discussão moral a respeito de justificar um roubo se ele fosse para uma causa nobre, onde a incorruptível sra. Munson não cai na tentação e no argumento dos fins justificam os meios do prof. Dorr.

Tecnicamente, o filme é primoroso, como tudo o que os Coen fazem. Tanto os planos milimetricamente encaixados quanto os diálogos quase ininteligíveis e rápidos para os não fluentes em inglês. O destaque dado à música gospel também é louvável, pois dá um vigor a mais em uma narrativa lisa e com poucas emoções.

Ninguém discorda da capacidade dos Coen de produzir grandes obras cinematográficas, de apresentar e desenvolver personagens das mais variadas formas, de estabelecer tramas, simples e complexas, que envolvem o espectador de maneira inteligente e tudo isso de forma comercialmente viável, o que a indústria adora. Mas também poucos discordam que The Ladykillers (Matadores de Velhinha) é provavelmente o ponto mais baixo da genial carreira dos diretores/roteiristas/produtores.

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Texto de autoria de Fábio Z. Candioto.

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