Crítica | Me Chame Pelo Seu Nome

Há beleza no novo, na epifania da descoberta é que nos sentimos vivos e desse curto espaço de tempo que o próprio tempo se revela um inimigo. Me Chame Pelo Seu Nome fala disso, fala do novo e também da experiência, do tempo e de distância, temáticas brotam como um romance de verão no novo longa do italiano Luca Guadagnino, ovacionado em festivais do mundo todo desde o início de 2017 o filme é simples como seus temas e tão profundo e sensível quanto, soa como poesia e resgata o valor de se contar uma história de amor.

Elio – interpretado brilhantemente por Timothée Chalamet – está passando as férias de verão de 1983 no norte da Itália com seus pais, até um dos alunos do seu pai, sete anos mais velho, chegar para semanas de estudos na casa, interpretado por Armie Hammer, o recém-chegado Oliver desperta em Elio desejo e admiração, fazendo com que os dois se conheçam aos poucos envoltos numa rotina calma e calorosa. Sem três atos pontualmente divididos, o filme passa bom tempo mostrando as investidas silenciosas dos dois rapazes entre jogos de vôlei, passeios de bicicleta e leituras a beira de piscinas, a atração deles é construída a passos lentos e está longe de ser puramente física, os dois se provocam culturalmente em cenas belíssimas, e é nesse começo longo e rotineiro que Guadagnino nos fazer perceber que Me Chame Pelo Seu Nome não está enraizado em padrões, fórmulas ou filtros.

Entre essas cenas uma história coming of age vai brotando entrelaçada ao romance eminente, acompanhamos um Elio maduro e talentoso, mas que ao mesmo tempo se julga não saber das coisas que importam, ele lê, faz a barba, reflete grandes questões, explora sua bissexualidade – sensivelmente trabalhada na narrativa, algo raro de se ver no cinema –, experimenta seus sentidos, e seu intérprete Chalamet não deixa de ser impecável, o jovem ator entende seu Elio nos mais sinceros olhares e gestos, transmite os desejos e anseios de seu personagem em movimentos travados e ferventes, o Elio de Timothée é palpável e a atuação masculina mais sensível do último ano. Hammer também faz do seu Oliver um personagem de olhares, e é um deleite acompanhar todos os escudos do mesmo serem desmanchados ao decorrer da história, mostrando brechas de um Oliver desconsertado e inseguro em milésimos de cena, um trabalho muito bem feito, mas nada maior do que ver os dois juntos em tela, é como pegar fogo, a química é tão forte quanto ambígua, é calmaria e sensualidade caminhando de mãos dadas. Os beijos são cheios de paixão, os toques são fortes, sente-se os dois atores entregues a história e a seus personagens, o que faz do longa um filme tão verdadeiro.

O diretor sabe muito bem criar essa atmosfera crível, um dos motivos de algumas cenas tratarem tão bem de certo erotismo e sensualidade é a escolha dele em dar grande destaque aos sons, a trilha musical desaparece e dá lugar a sons de respiração, um personagem engolindo seco, o roçar da pele na roupa, o suspiro de prazer, o som de pele tocando na pele, os sons das árvores lá fora… o diretor encabeça uma deliciosa atmosfera sonora durante todo o longa, que também se destaca pela inspirada trilha musical, principalmente as canções performadas por Sufjan Stevens, umas das melhores músicas originais em anos. A cinematografia é baseada em composições inspiradas e entrega imagens significativas, tanto quando enquadra os dois personagens principais, quando observa de longe em longos planos, tanto quando caminha por paisagens e olhares.

O final do filme traz um monólogo magnífico nas palavras de Michael Stuhlbarg na pele do pai do Elio, que deve ser lembrado ainda por muitos anos, por ser muito bem escrito e por concretizar o longa como um filme único, ele mais uma vez se mostra muito mais do que aparenta, novas temáticas desabrocham e é difícil não se relacionar. O longa é bonito em todas as significâncias da palavra, consegue ser simples e natural como a rotina enquanto conta a história de um amor gigante, conta a história do novo, da descoberta e da experiência, ousa em mostrar da forma mais crível possível o tiro certeiro do nosso inimigo tempo, ou a falta de dele, ou o que não fizemos dele. Me Chame Pelo Seu Nome é altamente sensível e já nasce importante, desabrocha no coração de uma geração sem amarras, como “filme queer” representa muitos, mas quando fala de ser humano, de amor, fala de todo mundo.

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