[Crítica] A Melhor Oferta

Virgil Oldman é mostrado como um sujeito excêntrico, meticuloso, calculista e detalhista. Não há nada na introdução de A Melhor Oferta que chame mais atenção do que o comportamento do personagem enquanto exerce o seu ofício de especialista em arte.

melhor-oferta-poster

Geoffrey Rush evidencia o seu talento ao interpretar o elegante e metódico protagonista. O (irritante) nível de perfeccionismo de Oldman o faz tornar-se uma figura próxima da antipatia, quase misantrópica, o que assinala ainda mais a condição de seu status, mostrando que sua reputação enquanto avaliador de peças caras é quase infinito.

Seu personagem muda um pouco de faceta nos leilões, onde é preciso mostrar carisma para conseguir as melhores ofertas possíveis. Como orador, ele chega a provocar risos na plateia ao lidar diretamente com os ricos investidores. Não parece haver nada que não esteja ao seu domínio ou longe de sua mãos poderosas, a não ser, é claro, a sua galopante superstição e crença no azar. Oldman tem o silêncio interrompido por um pedido desesperado de Claire Ibbetson – conhecida na fita apenas por sua voz -, cujo pai havia dito que uma peça precisava ser analisada por Virgil. Após muita insistência, ele resolve visitar a casa antiga da família Ibbetson e lá encontra um objeto estranho que atrai a sua atenção.

A curiosidade no pequeno pedaço de metal que encontra na casa dos Ibbetson não justifica em nada o seu interesse, a priori. Sua volúpia por resolver o mistério interfere até em seus esquemas de compra de objetos por preços baixos para revendê-los a alto custo. A obsessão causa nele uma miopia inapropriada para o seu repertório. A fotografia de Fabio Zamarion ajuda dar leveza à película, uma vez que o registro de cores caracteriza-se predominantemente por tons claros, e a iluminação é favorável a tal análise. A edição de Massimo Quaglia também colabora com a trama, especialmente por sua rapidez emular um senso de urgência muito singular, que se torna ainda mais exitoso graças à direção de atores que Giuseppe Tornatore exerce em seu elenco.

A fixação no “quadro” aumenta o escopo, e Virgil passa a se interessar demasiadamente na figura agorafóbica de Claire Ibbetson, inclusive vigiando-a em segredo para enfim ver a sua figura fora de seus aposentos prisionais. Sylvia Hoeks mostra a sua bela figura pouquíssimas vezes: quando sua personagem é vista, logo entra em desespero, de modo que só se acalma com a presença de Virgil. A relação passa por rusgas quando a moça descobre que foi ele quem a analisava, mas, pouco a pouco, os dois se reconciliam.

Como num processo vagaroso, os dois se aproximam de modo a formar um par de fato, primeiro como um restaurador da moral da moça, claro, sem deixar de lado sua face do hábil e experiente sedutor que é. O romance é lapidado por Virgil num exercício sobre-humano de sua parte, já que esse não é o costume de sua persona. No entanto, a confiança de Claire é um objeto de frágil manuseio, difícil demais de ser mantido, o que faz da jornada um caminho trôpego.

Como em espécimes anteriores da filmografia de Tornatore, A Melhor Oferta trata da obsessão humana, novamente tocando na ligação sentimental amorosa e no desejo ao proibido, como era em Malena, ainda que inverta a idade dos protagonistas dos dois filmes. A afinidade entre o leiloeiro e sua cliente os faz crescer mutuamente. Ambos vencem as suas fobias, assim como os movimentos compulsivos com os quais os dois sofrem.

A anunciada e improvável evolução de Claire e Virgil, que havia ocorrido de modo natural, ajudou a mascarar e muito a falsidade de intenções. O factoide só foi agravado pela lembrança da série de percalços “vencidos” através do auxílio de Virgil. O experiente analista aparece desolado após o forte golpe que sofreu, sensação otimizada pela expressão incrédula de Rush. A desolação que Oldman sofre é enorme e contrasta eficazmente com a ilusão que tinha pela espera da responsável pelo seu estado de nervos, e ora o personagem é mostrado como um sujeito supostamente engodado, ora em uma casa de repouso para debilitados mentais, mostrando como funciona a mente do homem após a traumática separação que sofreu.