Crítica | Meu Corpo é Político

As primeiras cenas do filme de Alice Riff remetem a uma naturalidade extrema, com cenas de banho, de pessoas tomando café da manhã com seus familiares e realizando a arrumação matinal logo após acordar. Meu Corpo é Político tem uma voz ativa e ideologicamente definida, mas não se restringe a ser ou ter um discurso que só funciona para quem é parte do nicho dos investigados pelo documentário, ao contrário, seu objetivo é mostrar que as pessoas transgênero que são analisadas possuem uma vida comum a de todos os outros tantos.

A intimidade e cotidiano são registrados quase a exaustão, para fortificar a ideia de normalizar os personagens analisados, deixando claro que os humanos que habitam esse mundo são feitos de carne e osso e que nem o “local” em que esses vivem é um mundo distante da população. A palavra-chave dita por quase todos os entrevistados é empoderamento, e apesar do termo ter caído muito na banalização, o sentido primordial dele é resgatado nos discursos defendidos.

O que mais causa comoção dentro do começo do filme, certamente é a questão médica, uma vez que as pessoas trans precisariam de cuidados especiais em caso de uma internação por qualquer motivo, uma vez que a taxa hormonal e outros detalhes de saúde seriam normalmente mais alterados dos que o de uma pessoa dita cisgênero. Da parte de Paula Beatriz a preocupação mais urgente é essa, de como seria ela tratada caso fosse internada em um hospital usual, não poderia ter o cuidado necessário consigo para quaisquer eventualidades.

Os relatos de alguns dos biografados contém um cunho de desconstrução da religião e da aceitação das gerações anteriores com as pessoas que decidiram por se assumir de fato. O detalhe de que todos os objetos de análise são provindas de favelas e comunidades é algo sui generis, para se entender como funciona o preconceito dentro das camadas mais populares da sociedade, longe das facilidades burguesas, que são pretensamente mais abertas ao diferente, ainda que isso jamais tenha sido comprovado de fato.

As palavras de ordem, que são proferidas nas frases e letras de músicas tem um cunho ideológico e político muito bem definido. Por mais que para boa parte do elenco de Meu Corpo é Político não se tenha embasamento teórico em literatura progressista tão evidente, sobra pragmatismo e vontade de se mudar a realidade castradora e cerceadora de direitos que está vigente. Talvez essas mudanças e transformações sociais não cheguem para as próximas gerações, mas certamente não é por falta de ativismo destes que se apresentam.

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