Crítica | Meu Nome é Dolemite

Aposta da Netflix para a temporada de premiações – em meio a outras tantas obras caras– Meu Nome é Dolemite conta a historia de Rudy Ray Moore, um homem criativo, mas que não consegue ter sorte em suas empreitadas artísticas. Eddie Murphy vive Rudy, e logo  aparece ele tentando convencer um produtor vivido por c a tocar suas fitas. Ele está com uma leve pança e o cabelo começa a rarear, e esses são apenas alguns aspectos que mostram que ele não corresponde ao estereotipo do negro bem sucedido.

Os dias de Rudy incluem conversas com seus amigos mais próximas, pessoas simples, de hábitos não sofisticados, que se alimentam de forma gordurosa e barata. Suas idéias de piadas são rejeitadas, não só nos shows de comedia em pé, mas também com os mais próximos, e a missão do filme é mostrar essa jornada de maneira palatável para o grande público, e para isso, investe em um elenco repleto de figurinhas carimbadas, em especial, atores negros.

É incrível a entrega de Murphy, que realmente parece um sujeito vindo somente de insucessos, em busca de novos materiais para fazer rir. As tentativas de construir um personagem,  no caso, Dolemite resultam em momentos pouco engraçados e muito dramáticos. A abordagem que o diretor Craig Brewer dá a sua adaptação biográfica é muito bem pensada e encaixada de um modo único. Rudy tem personalidade, e por mais que seu trabalho de pesquisa e laboratório seja curto, há fluidez no sentido de enfim encontrar a sua persona graciosa. O visual clichê, típico dos cafetões do Harlem, a peruca artificial, o gingado o aprimoramento de piadas e ditos bem populares

Depois de fracassar nas vezes que mostrou a produtores seu esquete cômico, muito por conta da linguagem pesada nas piadas, ele encontra na independência seu caminho. A historia de como Rudy encontrei seu personagem, Dolemite é muito rica,  e o roteiro não se perde em meio a todos esses detalhes. A reconstituição dos anos setenta é muito boa, lembra em alguns momentos a mesma feita nos filmes de máfia de Martin Scorsese, mas com identidade própria.

Uma coisa leva a outra e Dolemite e sua turma resolvem tentar fazer um filme, com pouco dinheiro e muita vontade. Brewer faz questão de mostrar que cinema não é fácil de fazer, tampouco é  tranqüilo todo o processo de captação de historias, imagens, atuações e dramaturgia e toda a metalinguagem empregada aqui não é novidade em produções recentes, mas a entrega tanto de elenco quanto do texto original impressiona, tornando o longa muito crível e palpável.

Toda a parte da produção do Dolemite de 1975 é sensacional, faz lembrar pérolas recentes, como O Artista do Desastre, com a diferença  de que o D’Urville Martin de Wesley Snipes não é um completo sem noção, aliás, essa versão do astro negro dos filmes de aventura blaxsploitation é muito rico, marcante desde sua primeira aparição.

A abordagem que Murphy e Brewer dão a Rudy impressiona, em especial no fato dele não se incomodar em ser encarado como um astro motivo de piadas, afinal o humor é onde moram suas raízes, tampouco se leva a sério ao ponto de refutar a chance de ser adulado e idolatrado. Poucas vezes um ator conseguiu entender tão bem um ícone como Murphy faz aqui, o filme soa fidedigno e até lirico em alguns momentos, a liberdade que o ator teve para achar seu papel ideal é um diferencial mesmo, do tipo que normalmente só ocorre quando o próprio ator dirige o filme, e não é o caso aqui.

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