[Crítica] Meu Rei

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Não há meios-termos na avalanche (sim, referência ao primeiro momento do longa) emocional de Meu Rei: os protagonistas Tony (Emmanuelle Bercot) e Georgio (Vincent Cassel) ora estão muito, muito felizes, ora estão gritando muito, muito alto. Esse visível extremismo nos sentimentos dos personagens podem muito bem igualmente representar a ausência de meios-termos no que, de fato, é o relacionamento do casal. Algo abusivo.

Mas em se tratando de um tema hoje tão corriqueiramente discutido mundo afora e que está constantemente presente para se discutir o chamado politicamente incorreto, a diretora Maïwenn surpreende por jamais apresentar como um de seus objetivos levantar alguma bandeira. Antes disso, Meu Rei quer ser um filme sobre figuras humanas, sentimentos latentes, os efeitos de uma paixão avassaladora, a passagem do tempo como coo um remédio letárgico, mas necessário para a auto-descoberta, uma nova reflexão sobre quem realmente somos. Meu Rei pode muito ser sobre pessoas como eu e você.

E nisso, o longa habilmente se divide em duas narrativas temporais: somos apresentados ao início da paixão entre Tony e Georgio, conhecemos a intensa alegria e atração sexual que tomava conta da relação aparentemente frutífera do casal, ao mesmo tempo que somos intercalados com o futuro de Tony, onde a mesma já não se encontra ao lado de Georgio e, infeliz, se recupera aos poucos de um grave machucado no joelho ocorrido de um acidente enquanto esquiava. Maïween nos dá o céu e o inferno ao mesmo tempo, descortinando também o meio desse processo e sua transição da felicidade para a melancolia.

Vai de cada espectador saber com quem simpatizar. Tony é por vezes histérica, agressiva, grita, berra, permanece quase que constantemente à beira de um colapso. Georgio é abusivo e controlador, manipulador e bon vivant, põe sua suposta amizade com a ex-namorada muitas vezes em primeiro lugar, enquanto Tony sofre por sua ausência. São personagens de grandes extremos, opostos que se encontram na vida, descobrem o amor ardente, e vão sendo vítimas do desgaste, e mesmo de um certo individualismo. Independente de com quem o público crie um laço, Maïwenn é bastante feliz em não apresentar nenhum dos dois como herói e vilão, culpado e vítima. Tony e Georgio nos soam muito mais humanos e palpáveis do que isso.

Se há um problema em Meu Rei, ele está no descontrole da diretora sobre como finalizar sua história. Em determinado momento, os personagens começam a andar em círculos, repetem situações, atitudes, diálogos, e nisso seus últimos 20 minutos ficam tão desgastados quanto a relação dos protagonistas.

Mas nada apaga a espiral intensa e o labirinto complexo de emoções que é Meu Rei. Maïween (já muito elogiada em seu longa anterior, Polissia) compreende seus personagens, trata-os adequadamente sem lhes resumir a estereótipos, e Bercot e Cassell (ela vencedora do prêmio de atriz em Cannes pelo papel) guiam seus papéis com a segurança e experiência de quem igualmente sabe de como compô-los em cena. Meu Rei é tão belo quanto dolorido.

Texto de autoria de Rafael W. Oliveira.