[Crítica] Mia Madre

Mia Madre 1

Usando a metalinguagem da feitoria do cinema como referência maior, Mia Madre é a nova aventura cinematográfica de Nanni Moretti – de Habemos Papam e O Crocodilo – que rege um filme focado na personagem Margheritta (Margheritta Buy), uma diretora de cinema, que divide seu parco tempo em três frentes: a realização de uma nova fita, a temível doença de sua mãe e as dificuldades em criar uma filha adolescente.

Sem qualquer preâmbulo, as cenas gravadas nas locações servem de paralelo para o eterno caos que habita o cotidiano de Margheritta, dialogando de modo incisivo com o espectador, servindo de atalho para a miscelânea de grandes problemas que insistem em cercá-la. Todo e qualquer evento cotidiano se torna parte de uma intensa epopéia, que faz a mulher demonstrar o sofrimento de baques, ainda que não se permita cair a partir das situações limites.

A luta da protagonista é vista em suas expressões faciais, completamente distante do furor excitante dos que a cercar, inclusive do recém chegado Barry Huggins – John Turturro, em participação especial – que já demonstra sua boêmia ao chegar no aeroporto italiano, repousando sem qualquer contexto com sua posição de antigo astro de cinema. Aos poucos, a sanidade da personagem vai se esgotando, com questões corriqueiras beirando o absurdo, invadindo o mundo ela considera realista. Mesmo um evento simples como o extenso vazamento de água em seu apartamento, é filmado por Moretti sob um ponto de vista fantástico, repleto de objetos cênicos que poluem o ambiente, e que servem de paralelo a bagunça em que está a psiquê da mulher.

Mia Madre

Grande parte do tempo de Margheritta se passa em translados, tendo que conduzir os entes que habitam a sua vida de um ponto ao outro do micro universo que é “aquela” Roma. Sua disposição para completa independência esbarra na sensação de impotência que tenta tomá-la, especialmente pela questão que envolve o acamar de sua mãe. Muito antes da fúria e do desespero tomá-la, já se nota que suas percepções a empurram para a beira do precipício, resultando num colapso comportamental do qual a mulher se recupera rapidamente, ao menos a olhos nus.

Mia Madre trata dos fatos e perdas inexoráveis, enlaçando tais sentimentos ruins junto as conquistas diárias, juntando tais experiências de um modo interdependente, como se para vencer alguns obstáculos, fosse necessário ter perdas, como parte da clássica jornada de edificação do homem, em torno da feitoria de uma arte.

A trajetória de Margheritta apesar de ganhar holofotes cinematográficos, representa dramas reais e comuns, onde a arte mais uma vez emula as questões corriqueiras do existir, se assemelhando ao espírito visto em A Pele de Vênus de Roman Polanski, em uma versão claramente menos inspirada, mas ainda assim, bela em sua execução.