[Crítica] As Mil e Uma Noites: Volume 2, o Desolado

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Em 2005, a Editora Globo fez a primeira tradução direta do árabe para o português do lendário e multi-interpretativo repertório de Xerazade, buscando no tratamento das histórias o ritmo, o sabor e o poder da palavra contido na prosa literária, fonte de inspiração para o alfa, e o ômega, de tempos não tão remotos, como Machado de Assis, Allan Poe e Voltaire, entre outros grandes escritores. Um trabalho que organizava as sensações de uma gema bruta para outro patamar de entendimento, muito antes de Miguel Gomes sentir a necessidade de colocar na tela uma megalomania cuja riqueza imaginativa sempre foi seu orgulho e soberana justificativa prosaica, e universalmente histórica.

Eis que, nisso, brota a necessidade do artista contemporâneo, em 2015, de revisitar esse mundo, incorporá-lo, e assim explorá-lo de um jeito bem mais dinâmico e matizado nas composições e alegorias visuais à trilogia que esculpe, com fins pura e letargicamente modernistas e fotográficos, logo após uma primeira parte confusa e mais apressada no toque. Miguel Gomes recorre então no segundo volume de As Mil e uma Noites à uma racionalização do surrealismo pragmático e mal-desenvolvido de antes, e faz deste O Desolado uma busca mais ambiciosa ainda, portanto cara ao artista: Gomes não estava mais tão interessado pela forma, mas finalmente, pelo 1) elaborar dos blocos distintos de dados visuais de cada história, pela 2) caça à uma identidade que reúna todo esses dados numa conjuntura própria, e 3) pela percepção de como tudo pode se encaixar na sistemática que se harmoniza entre o mostrar, e o sugerir do potencial não literário, mas cinematográfico por sua vez das situações, em voga, examinadas pelo artista como se não conseguissem escapar de um laboratório de emoções.

Para isso, Gomes aposta (também) no poderio da palavra, como na excessivamente longa cena da tribuna cheia de criaturas fantásticas, para só assim conseguir descrever, no núcleo da intenção da abordagem, um universo fragmentado entre certeza, e dúvida – agora sim, bem traduzido pela imagem. Um ‘Jardim das Delícias Terrenas’, o mais célebre e famoso quadro de Bosch cuja essência está lá, em cada pincelada, no paralelo (que só a imagem bem contada dá conta) entre ordem e caos, sempre! Assim, no desenrolar da desolação dos homens, essa desolação se mostra, primeiramente, do homem para com sua própria imagem, decadente, e em seguida, do homem para com o mundo, desgovernado a ponto de carecer então de uma lógica, de um esquema prismático não para esvaziar, encher ou transformar, mas apenas para aproximar os sentidos das histórias de Xerazade para nós, seres de outro século, e oferecer para os arquétipos de manifestação clássica daquela época, a culminação irregular, moderna e impressionista de todos eles em um só emaranhado; em uma só direção inteligente.

O cineasta português continua enxergando “As Mil e Uma Noites” como cria irredutível de um surrealismo quase circense, mas que aqui, pelo uso mais equilibrado da dialética e da harmonia um pouco mais consciente entre gêneros (drama, comédia, suspense), se apresenta de modo bem-desenvolvido, ainda que inofensivo quanto à mídia oposta. Mesmo assim, além de ser uma boa pedida, essa segunda parte da trilogia de Gomes, como na maioria das trilogias do Cinema, pode ser julgada de imediato como superior ao antes (O Inquieto) e ao depois (O Encantado), tal o “meio do caminho” que representa bem a conexão do começo ao fim. Sobretudo, vale afirmar como os três volumes da adaptação árabe ocupam o mesmo patamar crítico, todos sempre tomando partido de qualidades diferentes, tatos paradoxais, é claro, mas no olhar da trilogia como unidade, integram e enriquem-se na fluidez estruturalmente épica do conjunto.