Crítica | Miriam Mente

Uma das maiores graças de cobrir festivais como o Festival do Rio é poder ver não só os sucessos mundiais e o panorama do cinema brasileiro que foge ou não do mainstream, mas também poder acompanhar filmes que dificilmente passarão no circuito e de praças de cinema normalmente não cultuadas. Miriam Mente é um filme da República Dominicana, que fala sobre costumes e sobre a vida na infância. O filme foi exibido também em uma das mostras da semana da crítica do Festival de Cannes.

A historia gira em torno da menina negra Miriam (Dulce Rodriguez), uma menina bem nova, que mora com sua amiga Jennifer (Carolina Rohana), tem uma vida aparentemente sem preocupações, usufruem de alguns luxos, como acesso a uma casa enorme, educação de excelência, aulas de dança etc. A diferença é que Miriam não tem o mesmo sangue que sua amiga, e só tem acesso a tudo isso por algum tipo de caridade que lhe é prestada e cujo motivo não é revelado ao longo de sua duração.

Miriam tem acesso a internet e flerta com um rapaz por um grupo de mensagens, marca de se verem, mais de uma vez aliás, mas ao notar que ele é pobre e negro, como ela também é, ela se nega a encontra-lo, e chegando a época do baile, ela finge ter um par só para que as pessoas não a amolem, já que ela tem dificuldade em verbalizar os fatos que lhe ocorrem.

Se um espectador analisar de modo superficial e sem contexto algum, é capaz de nem perceber o incomodo que a menina vive, afinal ela tem muitos luxos e é bem cuidada por tantos outros empregados da família rica, mas todo seu entorno transborda falsidade e um tradicionalismo que a esmaga e faz sentir mal, sempre. Mesmo sempre calada, se nota em seu olhar e até nas pequenas inverdades que solta, um sentimento de não pertencimento aquele local e ao estilo luxuoso que lhe é entregue e mesmo com essas regalias, ela tem sua identidade sufocada e não pode sequer encontrar um rapaz que sempre paquerou.

O filme de  Natalia Cabral, Oriol Estrada engana ao fingir se tratar de mitomania, ao menos em relação ao seu titulo, pois as mentiras mais graves não vem de Miriam, e sim dos que a cercam, que fingem aceita-la mas que na primeira oportunidade de produzi-la para um baile, fazem questão de alisar seus cabelos, tentando torna-la uma menina branca, sem sequer perguntar a ela, e mesmo que perguntassem, dificilmente ela saberia verbalizar isso, pois em todos os 99 minutos da duração do filme ela não consegue dar vazão a nada. Miriam Mente é simples, mas extremamente poderoso e sufocante, por mostrar uma historia pesada e que é levada com uma atmosfera falsamente leve.

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