[Crítica] Mistress America

Mistress America 1

Roteiro de Noah Baumbach com a atriz que já estrelou dois de seus filmes, Greta Gerwig, Mistress America é mais uma história singela, cujo drama parece feito sob medida para a atriz, nos dois papéis principais. O mote do filme envolve a jovem solitária, entediada, carente e ainda assim bela Tracy, vivida por Lola Kirke.

O estereótipo visual e de idade faz Tracy lembrar uma versão rejuvenescida de Frances, em Frances Ha, substituindo a área artística da dança pela da literatura, mas igualando o mesmo “não pertencimento” ao glamouroso mundo em que tenciona adentrar. O destino faz Tracy encontrar uma pessoa muito mais segura, decidida e de bem com sua identidade pessoal. O fator de união seria o casamento dos pais de ambas, o que faria Brooke (Gerwig) enxergá-la automaticamente como uma irmã caçula, suprindo uma carência afetiva cuja lacuna está vazia desde o falecimento da mãe de Brooke.

A persona de Brooke é tão curiosa em essência que Tracy se permite usá-la como personagem falha em um conto literário, usando-a como inspiração em um misto de admiração e desdém, tão complexo quanto a montagem que o caráter de um ser adulto deve ser. Brooke é sonhadora, amoral e moderna, feminista e sensível, a ponto de fazer a pretensa escritora rever seus paradigmas, se agarrando sem pensar à rotina da sua nova parente.

O roteiro toma o cuidado em dar conteúdo e substância à personagem de sua roteirista, mostrando-a como quem usa um pensamento muitas vezes pautado na futilidade, misturando animação e paranoia de um modo que é quase indistinguível onde começa um sentimento e onde termina o outro. Seu jeito verborrágico faz lembrar o personagem clássico de Woody Allen, ainda que haja uma carga de feminilidade mais interessante do que a do desgastado personagem do diretor judeu.

Brooke é a típica fútil legal, mistura animação e paranoia; se acha certa o tempo todo. Ela faz contraposição à insegurança de uma mulher que tem uma possibilidade de futuro muito lucrativa, em especial graças à sua pouca idade, mas que é atacada pela ansiedade e não consegue desenvolver bem sequer seus próprios desejos, já que não tem clarividência sobre quais seriam esses anseios. Brooke é tão perfeitamente complexa que se assemelha a um personagem literário idealizado, ao mesmo passo em que possui defeitos muito comuns a uma mulher comum.

Baumbach parece, a partir de O Solteirão, localizar quase todas as suas histórias no mesmo universo particular, não deixando isso tão evidente quanto Scorsese e Tarantino geralmente o fazem, mas dando indícios narrativos filme a filme, seja na repetição de conflitos, seja na construção de pessoas desajeitadas tentando encontrar a definição sentimental, profissional ou de algo que faça sua identidade valer de algo. O roteiro usa o constrangimento para emular carisma, além de uma dose cavalar de emoção, como já é costume do cineasta.

A direção de Baumbach faz lembrar o recente Enquanto Somos Jovens, embora a ótica da jornada seja a partir dos olhos do jovem que se inspira no mais experiente. A antimoral e vida de pequenos excessos mostram ter seu “preço”, que é a insegurança financeira e emocional, o que faz a mulher mais velha ter de enfrentar os entes de seu passado, acompanhado, claro, uma coleção de pessoas tão ou mais desajustadas que ela.

Mistress America discorre sobre distúrbios emocionais, como depressão e bipolaridade, além de outras anátemas a doenças mentais, com uma personagem carismática que resiste em ainda ter tesão na vida, apesar dos fracassos e da sua idade que não para de avançar. O desfecho, com reviravoltas semelhantes às de Enquanto Somos Jovens, novamente põe um choque de gerações em pauta, ainda que seja um aspecto secundário, um ponto de partida para um drama sobre desfechos sem despedidas, que, mesmo não sendo tão inspirado quanto o filme anterior de seu diretor, ainda traz uma bela abordagem agridoce sobre as dificuldades em crescer e se tornar responsável por suas próprias inseguranças e medos.