Crítica | Moloch

Moloch é um mergulho na intimidade da cúpula nazista, um filme que se passa em 1942 e mostra um pouco do que seriam os dias comuns dos destes homens em dias onde o esforço de guerra não era o principal mote. No início há uma cena estranha, de uma bela mulher andando nua pelos corredores de um castelo antigo. A loira pratica atos em uma tranquilidade que não combina nada com a ansiedade dos conflitos que ocorrem no restante da Europa.

Entre fumaça e a névoa está o cenário do filme de Aleksandr Sokurov. Os Alpes da Bavária eram o refugio do ditador Adolf Hitler, meticulosamente escolhido como um esconderijo exatamente para não causar suspeitas e para ficar distante dos tiros e bombas que dilaceram corpos e almas de jovens soldados e de variados civis. Não fosse por um ou outro artefato utilizado pela atriz Elena Rufanova, com símbolos da suástica, mal se daria para notar suas inclinações políticas. Rufanova vive a amante do Fuhrer, Eva Braun, que aguarda ansiosamente a chegada do seu amado.

Não demora a comitiva do Terceiro Reich chegar, onde o personagem de Hitler, interpretado por Leonid Mosgovoy é um sujeito impertinente e inconveniente ao extremo, sendo um sujeito que incomoda até os seus. As interações dos personagens que compõem a cúpula de poder alemã não fazem muito além de se divertir e brincar, e o fato de serem comuns e tangíveis adiciona camadas a esses personagens que a historia recente normalmente retrata apenas como vilões malvados, maniqueístas e monstruosos e perder de vista que pessoas assim eram humanos comuns mas que corromperam seus corações e mentes é péssimo.

Ainda sobre Hitler, sua composição é de um homem frágil e inseguro, isso ajuda a explicar sua mania de grandeza e obsessão em perseguir quem pensa ou é diferente do que ele egoisticamente considera ideal. O autoritarismo que pratica e suas bravatas são explicadas facilmente pelas imperfeições que ele mesmo assume que tem e por sua baixa auto estima. Isso conversa bastante com a nossa realidade atual, embora por parte dos mais lembrados projetos de autoritários de extrema direita não haja exatamente um sentimento de auto comiseração tão forte, mas sim uma mediocridade facilmente lida por terceiros, por quem cerca os governantes atuais e por quem é governado por eles. Neste ponto, o Adolf que Sokurov registra é mais imponente, pois ele só permite se mostrar fraco no quarto, na intimidade com sua mulher, e para um ou outro agente de confiança, ele não se super expõe, ao contrário dos chefes de estado da atualidade que através das redes sociais, derramam suas fraquezas, fragilidades de discurso e incongruências de pensamento.

A rotina dos que interagem no castelo é bem desinteressante, entre jantares, provas de sopas de aparência asquerosa e apreciação de filmes da maquina nazista, mas para Eva e Adolf os momentos são bem diferentes, entre transas e brigas ambos demonstram o quanto são desequilibrados emocionalmente e o quanto cedem a paranoia e insanidade. Eles vão mais as vias de fato do que se entregam ao prazer e parecem estar sempre a beira de um ataque de nervos. Moloch carrega o nome de um figura mitológica que os amorreus veneravam perto de 1900 a.C, era chamada na versão brasileira da Bíblia de Moloque e aos seus pés eram praticados atos sexuais e sacrifício de crianças. Diante da carreira retratada no longa de Sokurov, o nome faz sentido, e o estudo a respeito da intimidade das pessoas históricas é complexo, profundo e cômico em muitos pontos, um deboche às figuras odiáveis da história.

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