Cinema

Crítica | As Montanhas Se Separam

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As Montanhas Se SeparamNas primeiras cenas do filme As Montanhas Se Separam há a comemoração do ano novo, mas especialmente de entrada no novo milênio. Um período de transição, movimento. De reação perante as mudanças sociais, econômicas e íntimas. Tao (Tao Zhao) dança Go West, do Pet Shop Boys na primeira cena do filme, já conquistando o público com sua tão real alegria. E assim há a aceitação em acompanha-la por três períodos distintos, e como ela reage em relação ao mundo ao seu redor; suas escolhas e criações.

Zhangke Jia (Em Busca da Vida, Um Toque de Pecado) escreveu e dirigiu essa carta de amor às memórias e aviso realista ao que o mundo pode se tornar. Ainda que trabalhe com a simplicidade, com o íntimo, os temas abordados por Jia são universais e de interesse geral. Apesar da estranheza que se causará em alguns espectadores devido a cenas surrealistas, a força social do filme impressiona por sua despretensão. Ao focar tanto nos personagens e suas histórias, seus dramas, o cenário local e global, por exemplo o domínio britânico sobre Hong Kong. Além de temas como alienação cultural e capitalismo, que seguem como um pano de fundo que rende camadas e mais camadas ao filme.

Nos primeiros quarenta minutos, antes do título aparecer, temos a vida de Tao jovem adulta. O principal conflito se faz nos dois homens que brigam pelo amor dela, Zhang Jinsheng (Yi Zhang) e Liangzi (Jing Dong Liang). Um deles trabalhador de minas e o outro um empresário, um deles buscando simplesmente estar presente e o outro impressionar Tao com riqueza e seu crescente estilo ocidental. A mensagem é clara. A próxima etapa se faz 15 anos depois. Tao está divorciada e tem um filho que mora com o pai, longe dela, o que passa a carregar como se configuram as relações de gênero da China. No momento final seguimos o filho de Tao, alienado de suas raízes chinesas e em outro país, alienado de sua família, carente; por acaso, seu nome é Dólar.

A edição do filme trabalha junto com a fotografia para dar a cada época uma diferenciação técnica. Em um primeiro momento temos o aspect ratio em 4:3, então avançamos e surge o 16:9. Na etapa final já é 2.35:1. Em outras questões, a fotografia não busca chamar atenção para si. A câmera se esforça para manter a atenção em determinado personagem, muitas vezes negligenciando o outro em cena. Os motivos podem variar desde atiçar a vontade de interpretação do público até a importância que um tem em relação ao outro. Da mesma forma, as composições retratam o estado emocional, introspectivo e solitário, dos personagens.

A atuação de Tao é o aspecto mais poderoso do filme. Carrega em si leveza e honestidade. De novo, simples, sendo perceptivelmente uma característica do diretor. E ainda que muitos o pensem, sua falta na segunda metade não torna o filme pior, já que ele já estabeleceu que não é tanto sobre Tao, quanto é sobre os caminhos que trilha.

As Montanhas se Separam não é sobre as montanhas em si, mas sim sobre a separação. Os momentos chaves que mudam tudo ao redor delas. Pessoas não foram feitas para viver sempre umas com as outras, nem o mundo foi feito para ser igual. Ele vai seguir e, possivelmente, irá se render a uma homogeneização cultural. Ainda que, tal como construções clássicas, as memórias e as tradições viverão para sempre na paisagem daquilo que não é mais o que foi. Onde houveram risos e gritos e, principalmente, dança.

Together – we will go our way
Together – we will leave someday
Together – your hand in my hand
Together – we will make our plans

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Texto de autoria de Leonardo Amaral.

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