[Crítica] Moonlight: Sob a Luz do Luar

Logo no início de Moonlight: Sob a Luz do Luar observaremos uma criança, Chiron, sendo perseguida e insultada por outras crianças através de apelidos pejorativos relacionadas à sua sexualidade. Buscando refúgio e consolo, o menino se isola e é então que vemos surgir em sua jornada o traficante Juan (Mahershala Ali) que compadecido com tal situação decide ajudá-lo. Ao levá-lo de volta pra casa, Juan e nós espectadores, acabamos por descobrir que a mãe do menino — Vanessa (Naomie Harris) —, sofre de dependência química e então percebemos os conflitos se intensificando ainda mais à confusão que habita dentro do garoto.

Juan e sua namorada Teresa (Janelle Monáe) acabam apadrinhando de certa forma o menino, buscando-lhe proteger e acolhê -lo se necessário. Daí por diante, acompanharemos a vida de Chiron, desde sua infância, perpassando sua adolescência e ensejando por fim em sua fase adulta, sendo interpretado por três atores em suas respectivas fases distintas  —  Alex R. Hibbert, Ashton Sanders e Trevante Rhodes  —  solução essa, que também se dará com o amigo/parceiro do protagonista, Kevin, que de maneira reflexiva também será vivenciado por três intérpretes diferentes, Jaden Piner, Jharrel Jerome e André Holland.

O filme se alinha de forma cíclica com a jornada da personagem principal e é dividido claramente em três partes, estabelecendo inclusive etapas na passagem do tempo através dos títulos: Moleque, Chiron e Black.

A mágica obra dirigida por Barry Jenkins, atinge diversos ápices em vários momentos e de forma bastante multifacetada. O diretor sabe exatamente onde quer chegar, se utilizando de um domínio da mise-en-scéne em seus enquadramentos através dos assuntos que pretende evocar e principalmente em sua narrativa. Nada escapa de sua câmera precisa, desde os mais profundos olhares e intenções, até os silêncios mais reflexivos possíveis. A sensibilidade do cineasta vai se mostrando aos poucos através de símbolos, destacando dentre muitos tantas emulações à presença constante da cor azul, seja retratada em uma mochila, um tênis, ou mesmo em um carro, sempre de forma orgânica dentro da trama.

Em determinado momento, Chiron acende um cigarro para sua mãe já bem debilitada em uma clínica de recuperação, e tal gesto, se torna mais do que simbólico, ganhando um cunho metafórico, ao trazer consigo camadas emocionais de pesos descomunais. São nessas simplicidades narradas a todo o instante, que acabamos por perceber as sutilezas de Jenkins ao mostrar o quão incrivelmente sentimentais são os desfechos, os meios ou mesmo os inícios de tudo àquilo que nos circunda no cotidiano. A obra pode fazer doer em alguns momentos, mas se o faz é justamente por ser tão real, tão tangível e por literalmente transpirar o que é estar vivo e manter-se vivendo e vivenciando esses altos e baixos. É sobre se descobrir, transpor situações e se identificar com o amor independente de sua condição, seja ela para com alguém do mesmo sexo ou não.

A história de Chiron, pode ser minha, sua, nossa; e se não nos identificamos com sua jornada, podemos observá-la todos os dias em alguém próximo, basta que pra isso tenhamos olhos para enxergar. Experimentar esses “batismos de fogo” e assimilar todo esse processo talvez não seja tão difícil quanto imaginamos, basta que nos empenhemos para tal. No próprio filme, Chiron diz que por vezes “chora tanto que acaba seco por dentro”. Quantos de nós já não nos sentimos secos por dentro? Preso em algo/alguém ou em lembranças e os sentimentos que elas automaticamente suscitam? Entre um forte drama familiar, instantes de incertezas e passagens marcantes, a impressão final é que Chiron trinfou diante as adversidades e se consolidou quando se decidiu. Decisão que tomou por si mesmo sem deixar que lhe ditassem como ele deveria ser ou o que fazer.

O filme é colossal e transcende qualquer premiação. É em certa instância uma obra até difícil de se condensar em palavras escritas já que pulsa emoção desde seu início até o minuto final. Uma experiência extra-sensorial que irá permear o inconsciente do público por um longo tempo.

Texto de autoria de Tiago Lopes.