Crítica | Mormaço

Filmado nos preparativos para as Olimpíadas do Rio 2016, perto da comunidade onde ocorreram algumas ações governamentais de desapropriação de casas na Vila Autódromo em um espaço próximo da onde ocorreriam os eventos na cidade carioca, Mormaço começa mostrando sua protagonista, Ana (Marina Provenzzano), sendo coberta por uma fumaça muito espessa.

O trabalho de Ana  é como assistente social, ela tenta auxiliar as pessoas que são acuadas pelo governo a resistir a essa remoção, mas ela mesma passa por algo parecido, uma vez que seu prédio está sendo inspecionado por um sujeito chamado Pedro (Pedro Gracindo). A maioria dos moradores também já cederam, e quase não há mais habitantes, exceto um ou outro, entre eles uma senhora de mais idade que é preocupada em sair de lá, por conta das lembranças e dos seus animais de estimação.

O cotidiano da protagonista varia entre confraternizações com seus amigos de esquerda membros da elite que se comporta como a autentica (e criticada) esquerda festiva e os dias no trabalho e em seu prédio. Essa rotina aos poucos a esmaga, e ela sequer percebe os hábitos terríveis que começa a ter, como o de nadar na piscina suja de seu prédio, a mesma que está em vias de ser esvaziada e que está repleta de lodo.

A natureza do emprego de Pedro é estranha e só um dos fatores que faz ele soar estranho, pois além de desalojar pessoas ele também tem uma banda de rock com elementos de mitos de  Candomblé, e ouve muito Ramones. Seu envolvimento emocional com Ana soa forçada, pois é pautada em nada além de tesão e vontade de trepar da personagem, não que ela ser bem resolvida sexualmente seja um problema, mas sim porque os motivos que causam esse tesão súbito nela não são bem explicados ou explicitados, são simples sintomas de uma doença que ela contrai e que não se sabe a origem, ela apenas a tem, talvez por fruto da sociedade doente que a envolve. Essa falta de justificativa faz perder boa parte das discussões que poderiam soar profundas, mas que aqui parecem mais preocupadas em só mencionar as mazelas sociais ao invés de discuti-las.

Ana vai ficando doente, com manchas que só aumentam e que não se sabe da onde vem, se são frutos de micose, infecção, stress. Aos poucos elas vão se desenhando como manifestação da sub moradia que tem e ganha gravidade, pois o ferimento só aumenta. A protagonista piora a medida que o governo teima em piorar a situação dos moradores da vila, na boca de Provenzzano vem a pergunta se “a cidade está desaparecendo”, mas o que realmente se extingue é sua saúde.

A mancha avança e cada vez mais parece um fungo e a origem desse agouro é algo terrivelmente mal pensado, ligado as infiltrações que o apartamento da mulher tem. As duas situações de realocações se juntam, ao final, em um arremedo de roteiro que apressa todos os processos e faz pouco sentido. A coceira piora o quadro, e o hábito de se alimentar de frutas podres faz a rotina de Ana soar como nojenta. O desfecho do roteiro de Marina Meliande (a diretora) e Felipe Bragança é bagunçado e aberto, de uma dubiedade meio tola, que não explica e nem abre possibilidade de teorizar de uma maneira lógica o que ocorreu com Ana. Mormaço tenta ser um filme dedo na ferida, no sentido de falar sobre uma questão social importante para a cidade do Rio de Janeiro e para o Brasil como as desocupações, mas não se aprofunda nem nessas questões e nem no caráter fantástico da obra, fazendo toda essa mistura de elementos parecer caricatural e não séria e esse definitivamente não é o caráter que o filme quer atingir.

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