Cinema

[Crítica] Motor Psycho

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O início, um tanto pacato, mostrando a rotina de um casal deveras normativo, comprova algo que vai contra o texto do qual Russ Meyer falará: uma contraparte feminina muitíssimo insatisfeita sexualmente pelo homem conservador que a possui. Seu reclame de que a transa seria um passatempo melhor que a enfadonha pescaria é quase tão gritante quanto a volúpia de seus seios, que estouram a lente do diretor. Logo, sua fome não mais seria um problema.

A moça de feições deleitosas recebe de Brahmin (Stephen Oliver) um beijo forçado e assiste ao espancamento de seu par pelos asseclas de seu agressor pessoal. Após um registro de violência moderada, é exibida uma sugestão de cena de estupro, claro, de modo velado, algo que, mesmo com todo o caráter de filme B da obra, ainda não seria totalmente permitido para a fita.

A sexualidade, antes sugerida nos filmes de Marlon Brando e repetidas nas histórias de rebeldia sem causa de James Dean, encontra neste uma paragem segura. Quase todas as mulheres apresentadas em tela são extremamente erotizadas, quando não, vítimas claras de violência sexual - esta característica até parece glamourizada em alguns momentos. A trilha rockabilly tenta, em vão, aplacar as constrangedoras situações registradas pela câmera de Meyer, que não poderia exibir seu filme em cinemas frequentados pelo americano médio e crente nos valores conservadores.

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É incrível como apenas a apresentação das sugestões de agressões atinja tanto o público quanto este faz. A ambiguidade do roteiro e o modo como o diretor realiza o ângulo de suas cenas fazem com que o espectador se pergunte sobre de que lado os produtores estão, e se realmente há qualquer partido destes dentro da discussão, uma vez que, fora alguns pontos na música do filme, não há um juízo de valor completo ou moralista por trás das intenções do cineasta.

Brahmin e seus asseclas seguem cortando o deserto californiano, deixando uma trilha de vítimas numerosas, humilhando os homens - algumas vezes matando-os sem se preocupar muito com o lado humanista, somente cobrindo seus rastros para não pararem na cadeia - e explorando as mulheres em suas orgias regadas a álcool. Do outro lado da lei, há o ranger Corey Maddox, interpretado por Alex Rocco, cujo único aliado é a trilha incidental repleta de metais, que demonstra que, no caráter do personagem, há um quê de bom mocismo, em muito diferenciado do comportamento dos motoqueiros vândalos, que fazem questão de se posicionar fora do contrato social.

No entanto, nem o policial é livre da sexualização de seu personagem, uma vez que este protagoniza uma forte cena em que obriga uma moça a chupar o veneno de uma cobra em sua perna, fazendo com que os movimentos e urros de dor do agente se assemelhem às manifestações de um homem que recebe o sexo oral. Mesmo nas suas primeiras aparições, ele é mostrado em um momento de intimidade, com uma mulher, fazendo dele uma figura longe do ideal puritano que o convívio social gostaria.

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Mesmo com as condições precárias de orçamento, e com a difícil aceitação do público da época, que dificilmente compraria uma fita tão violenta e descompromissada com a tradição familiar, o roteiro de Meyer, James Griffith, Hal Hopper, Ross Massbaum e Billy Sprague contempla uma sociedade violenta, não muito diferente do quadro social atual.

A guerra travada no asfalto pós-anos noventa foi profetizada pelo roteiro, que tomou emprestada a grafia visual de outros embates, como o conflito do Vietnã. Além de ser uma referência no quesito mortes desnecessárias e também o catalisador de um trauma que tomou a nação americana, o conflito tem em seus veteranos de guerra uma boa parcela de facínoras, cuja condição mental não os permitia viver pacificamente, a exemplo do líder do bando Brahmin, que antes lutou por seu país mas que prossegue assassinando os seus em nome da difícil missão de viver junto à comunidade, a qual o fez lutar por uma causa perdida.

O assassino, que impinge os próprios pecados sem qualquer remorso, demonstra uma síndrome psicopata enorme, a despeito dos parcos talentos de Rocco enquanto ator. É notável a dificuldade por parte dele em sentir qualquer emoção que tenha em relação a outra pessoa que não ele mesmo. Seu cinismo, que pode ser encarado como simples canastrice, parece ser o artifício decidido por Meyer para demonstrar que ser mal encarado não faz do sujeito um justiceiro acima de qualquer suspeita. A aproximação do anti-herói e vilão é discutida, mostrando que a distância entre os dois estereótipos é deveras curta, o que remete a Dirty Harry e seus filhotes, vividos pelos brucutus dos anos oitenta. A discussão a respeito do comportamento fascista de ícones do cinema já havia sido feito nesta fita de Russ Meyer, que não guarda amarras ou convenções públicas tradicionais.

Filipe Pereira

Filipe Augusto Pereira é Jornalista, Escritor, quer salvar o mundo, desde que não demore muito e é apaixonado por Cinema, Literatura, Mulheres Rock and Roll e Psicanalise, não necessariamente nessa ordem.
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