Cinema

[Crítica] Mr. Untouchable

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O documentarista especialista em cultura afro-americana Marc Levin se mune de sua experiência anterior em Slam, Gang War: Bangin' in Little Rock e Uma História de Amor ao Brooklyn, além é claro de sua obsessão por histórias do gueto estadunidense. Sua análise é focada em Leroy “Hypnosis” Nicky Barnes, uma poderosa figura no Harlem, responsável principal pelo tráfico e consequente mania e comércio de heroína entre os usuários de Nova York. Chamado de O Poderoso Chefão Negro, Barnes era considerado Intocável, como foi chamado um dia Al Capone.

O modo de operar de Hypnosis era mais selvagem do que os de seus colegas de conglomerados anteriores do crime. Os métodos mais violentos garantiam a si uma aura de ser imperdoável. Sua colocação enquanto chefe do crime o distanciava de seus semelhantes, dando ainda mais ambiguidade a alcunha de intocável. Através de um número encenado, Barnes é mostrado falando direto a câmera, citando possíveis dúvidas morais do contraventor, especialmente no que tange ser ele ou não um instrumento dos homens brancos que fortificaria a idéia de que os negros eram menos evoluídos e inferiores.

A violência das ruas é muito bem flagrada, mostrando fortes cenas de corpos dilacerados, cadáveres que habitam com um vermelho predominante os cinzas das ruas nova-iorquinas, efeitos de uma guerra por poder, que normalmente vitima os cidadãos de cor americanos. A ostentação de poderio financeiro e de influência de Barnes aproxima-se de uma afronta considerando a quantidade de pessoas que tombam ao seu redor, membros da mesma classe social e racial dele, e que mesmo perdendo muitos em suas fileiras, ainda é capaz de idolatrá-lo.

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O fato de ser capa de revistas, normalmente palco para as peripécias dos cidadãos brancos, o elevava a um patamar de fama não antes visto, pondo em um hall de fama que continha tantos outros negros ilustres, fazendo dele uma figura tão conhecida quanto heróis e ativistas da causa racial. A prisão dele, em virtude dos exageros de sua gestão, deram a ele uma aura de mártir, ainda que completamente imerecido.

Marc Levin se esforça grandemente para não vitimar o analisado, até por este jamais ter se visto deste modo. Os crimes de Hypnosis não são ignorados ou aplacados, tampouco seus defeitos. A trilha sonora, repleta de soul, rap e jazz proporciona uma imersão no black world onde Barnes se inseria, mas não o glamouriza, tampouco o isenta de seus crescentes atos de vinganças, fazendo dele algo entre o anti-herói americano e o típico herói falido, protagonista de uma tragicomédia que tem no não riso seu maior trunfo com o público.

A gravação exibida ao final, com a voz de Nicky Barnes declarando sua culpa, não tentando em momento nenhum se desculpar pela delação, é toda contemplada por uma mensagem de tentativa de redenção, igualando a sua trajetória a dos injustos, ignorando completamente os que sempre estiveram com ele. De certa forma, exibe uma faceta egoísta, mesmo que em seu discurso haja um apelo para que a juventude não cometa os mesmos erros que ele. Ainda assim, Levin não o trata como um crápula ou como um bandido simplesmente, destacando toda a intimidade, degradação e meios tons de sua biografia.

Filipe Pereira

Filipe Augusto Pereira é Jornalista, Escritor, quer salvar o mundo, desde que não demore muito e é apaixonado por Cinema, Literatura, Mulheres Rock and Roll e Psicanalise, não necessariamente nessa ordem.
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