Crítica | Mudbound: Lágrimas Sobre o Mississipi

“A Vida é uma professora,
O tempo é quem cura,
E eu tenho fé,
Como os caminhos de um rio selvagem”

– Trecho de Mighty River, por Mary J. Blige.

Quando Mudbound: Lágrimas Sobre o Mississipi foi anunciado, como o projeto de uma diretora negra sobre as raízes de uma América ancestral que poucas pessoas reconhecem, e poucos americanos nativos se deixam recordar, então um mundo desigual e ainda não-industrializado dentro da nação que virou sinônimo de igualdade com o sonho americano e de industrialização pós-segunda guerra, a sensação foi justamente essa, ironia. Indo muito além de seu elenco majoritariamente negro em tempos de choque racial ainda serem uma realidade no governo Trump, abertamente retardatário, mas pelo filme encapsular em meia dúzia de relações um espírito americano de sonho, de coragem e resistência que ainda somos bombardeados por ele através da propaganda de filmes de super-heróis, totalmente políticos, mas que muitos cidadãos da pátria dos “salvadores do mundo” já não conseguem mais senti-lo. O filme, por outro lado, não tenta resgatar essa valorização do amor pela terra, do amor patriótico, mas retrata muitas das agruras que fizeram esse sentimento se espalhar.

Mas houve um tempo que eles mesmos acreditavam no sonho deles, e claro, já pagavam o preço pelas empreitadas – vezes boas, vezes não. Famílias como a de Laura (Carey Mulligan) e Henry McAllan (Jason Clarke) mudavam espontaneamente para o interior, o famoso sul americano a procura de terra e oportunidade de se juntar uma grana, e como eram brancos, não esperavam o choque com um sentimento local nada abstrato de constante revolta, devido à segregação racial institucionalizada nos Estados Desunidos da época, o choque já enraizado também entre negros e brancos que já dividiam aquelas terras antes, e a própria dureza econômica da vida de quem vivia nas fazendas do Mississipi. Toda essa dificuldade já foi exemplarmente explorada pelo velho mestre John Ford, um dos pilares da trajetória do cinema americano, com clássicos seminais como o famoso Vinhas da Ira (1940) e o magistral Caminho Áspero (1941), ambos sobre a incongruência do lado mais pobre da nação mais rica do mundo, e é justamente a fé que nasce de cenários infelizes como o que observamos neste filme de 2017 que é muito bem representada pela canção “Might River”.

A diretora Dee Rees é americana, sabe e sente muito bem os rincões que resolve vasculhar com um belo trabalho de câmera, evidenciando um ambiente e fazendo-nos sentir o aroma de suas veredas, de suas casas, de sua gente. Ela aqui tem mãos suaves, sabe até muito bem o que faz e não deixa temáticas pesarem muito na tela. Sua cadência e sua valorização do período histórico é devidamente retratada em drama e suspense pontuais, ambientados por uma mise en-scène enxuta que parece resguardar todo aquele povo num tempo suspenso da realidade, como se aquele misto de tensões e dificuldades de uma nação ainda em desenvolvimento estivesse sempre acontecendo, tal um universo paralelo mesmo com dilemas constantes, pois a sensação não vai muito longe disso.

Assim sendo, Mudbound: Lágrimas sobre o Mississipi é a cria mais cinematográfica da Netflix, e que conseguiu chegar ao Oscar com algumas boas e merecidas indicações, fazendo todos olharem para a produção. Um filme cujo recorte nacionalista de uma realidade é mais que puramente contemplativo para com seu povo, com sua terra e sua perspectiva de “mundo”, incitando a reflexão sobre incidentes que ainda persistem a rolar hoje em dia, como a cena de assassinato racista a um negro poupando seu amigo branco, ambos podendo sofrer o mesmo destino devido as condições que ambos se encontravam. Rees opta então por um multiplot inevitavelmente polêmico, contudo manso, seguro e sereno de ricos personagens que, feito um rio, vai curtindo seu fluxo até um belíssimo final.

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