Crítica | Nada a Perder: Contra Tudo, Por Todos

Antes das sessões de Nada A Perder – Contra Tudo Por Todos, alguns dos fiéis da IURD distribuem lenços com mensagens que deverão ser orados ao final. Esse simbolismo é uma das marcas do trabalho ministério espiritual de Edir Macedo, e é claramente inspirado no misticismo típico de algumas religiões afro brasileiras, feito até mesmo aventado no filme de Alexandre Avancini. Ainda que a cinebiografia de Macedo seja chapa branca, e esconda as perseguições que o mesmo cansou de fazer com os membros desses sectos religiosos, sempre tratando como servidores do demônio, o roteiro de Emílio Boechat e Stephen P. Lindsey é certeiro no sentido de idolatrar seu homenageado. Quase uma contradição, afinal, a luz da Bíblia e das palavras do próprio Edir, cultuar pessoas é pecado.

O filme estava em cartaz há quatro dias quando assisti. Não houve cabine de imprensa e tentei pagar pelo ingresso, sem sucesso, nos dois primeiros dias de exibição. Sessões esgotadas nos cinemas do subúrbio do Rio de Janeiro. Sendo assim, só consegui no primeiro de abril, na Páscoa, não por acaso em um domingo de tarde, dia de culto. Ainda assim, a sessão estava com boa quantidade de público, presentes para assistir a jornada do bispo, desde sua infância traumática, até se tornar um jovem adulto que trabalhava em uma agencia lotérica como contador. Vivido nesta fase por Jose Victor Pires,  o personagem se converte ao evangelho protestante, discutindo assim a fé católica romana.

Abandonado pelos amigos e até por sua namorada – que reclama da falta de sexo – ele encontra refugio no Jeová da igreja evangélica. O filme super valoriza a rejeição que o ministrante do evangelho sentia por ter um defeito nas mãos e ainda trata de maneira jocosa celebridades que o cercavam, entre elas Silvio Santos e R R Soares. O longa não é documental, aliás, foge em excesso da realidade, ao beatificar o personagem principal, fazendo dele um mártir, um sujeito que é proibido sempre de pregar.

Petrônio Gontijo tenta copiar os trejeitos do futuro bispo, especialmente quando é mais moço e aparenta ter dificuldades de locomoção, dada o quão duro são seus movimentos. Seu Edir Macedo, desde a meia idade, parece sofrer de reumatismo. Sua personalidade é esquisita, sem carisma ou capacidade de atrair a atenção de quem que seja, sejam os fieis ou sua futura esposa.

Há uma cena de exorcismo, bastante curta e muito bem feita, mas ainda assim é tímida. O ministrante que ficaria por entrevistar possessos mal tem oportunidade de produzir sua especialidade. A partir daqui começa a jornada da Universal do Reino de Deus, parte passada de maneira muito rápida. Não há nenhuma menção da atuação política da igreja, como o ingresso de pastores e bispos que se envolveram na câmara dos deputados estaduais e federais. O mais próximo disso, é uma menção a uma manobra da época de Fernando Collor que ajudou a igreja a capitalizar o que precisava para completar o dinheiro que quitaria as parcelas da compra da Rede Record de televisão. Mesmo essa questão primordial é mal explicada, basicamente se menciona e mais nada. Além disso, a própria compra da emissora é feita sob uma ação um pouco teatral e extremamente artificial.

O filme termina com uma oração do próprio Edir Macedo, no jardim do luxuoso Templo de Salomão. Deixando a sensação de que esse é um filme para conversação de almas, tão forçado quanto o testemunho do mesmo. Uma pena, para dizer o mínimo, já que boa parte da bilheteria do filme é paga pelos fiéis, motivados por seus pastores que fazem comprar os ingressos, como já havia sido feito em Os Dez Mandamentos: O Filme. Essa questão, além de anti ética e desonesta, tecnicamente é pecado também, pois é uma trapaça, um subterfúgio.

Nada a Perder promete ter uma continuação, e certamente não tocará em assuntos polêmicos, como a ascensão de Marcelo Crivella (atual prefeito do Rio de Janeiro), a prisão de antigos bispos envolvidos com política, perseguição a religiosos de Umbanda, Candomble e outras religiões, bem como a cobrança de dinheiro dos fieis para a construção de templos enormes ou a propagação do chamado evangelho da prosperidade.

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