Crítica | Não Devore Meu Coração

Exibido em festivais internacionais, como o Festival de Berlim, Não Devore Meu Coração resgata a história trágica envolvendo a Guerra do Paraguai, mostrando a frente entre o Brasil e seu vizinho, as margens do Rio Apa. A história se foca em dois irmãos, o menino Joca (Eduardo Macedo) e seu irmão mais velho Fernando (Cauã Reymond), o mais novo é um garoto que é apaixonado por uma garota indígena estrangeira, Basano La Tatuada (Adeli Benitez), e o mais velho um motoqueiro envolvido em corridas clandestinas, e parte de um grupo que parece ter negócios escusos.

O roteiro que o diretor Felipe Bragança escreveu é inspirado em contos de Joca Reiners Terron (Não Há Nada Lá). Esse aliás é seu primeiro longa solo, pois já havia dirigido A Alegria e A Fuga da Mulher Gorila, com outros parceiros. Do conto, há a lembrança sobre as mortes dos índios durante o conflito histórico e ao longo dos anos, mostrando aquela zona entre Mato Grosso do Sul e as terras paraguaias como uma ex-zona de guerra histórica, que mesmo com o passar dos tempos, ainda carrega uma forte carga de ressentimento e de senso de justiça jamais justificado.

Talvez o maior senão do longa seja o fato da historia bifurcar entre os dois irmãos. O romance entre os infantes e o crescimento do pequeno Joca não passam nem perto de ser tão tensas quanto a história de perdas, roubos e mortes que Fernando sofre. A sensação de não pertencimento a um lugar e a uma família é uma trama que, apesar de apelar para alguns clichês como Complexo de Édipo e não aceitação das gerações anteriores, ainda assim esse drama é bem desenvolvido, ao contrário do desinteresse total que é apresentado com o caçula.

O final mostra um personagem confuso, que cede as pressões sempre o cercaram, deixando seu ódio e sentimentos torpes prevalecerem sobre sua honra e sobre o nome de sua família, sendo que essa última, para si, claramente não tinha qualquer brilho ou importância real, uma vez que sempre impingiu a ele desprezo, obviamente tendo isso retribuído já na vida adulta. De inteligente, ao menos há um fio de esperança sobre as gerações futuras, que parecem ter selado a paz nos momentos finais, para um conflito antigo que parecia jamais ter possibilidade de ter um fim. A tentativa de tornar a trama em algo espiritual também só funciona em um dos núcleos do filme, mas ainda assim Não Devore Meu Coração tem mais momentos positivos do que enfadonhos, conseguindo driblar algumas escolhas de mau gosto que tornaram filmes recentes como Motorrad em objeto de riso, trazendo elementos reflexivos profundos, apesar de tudo.

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