Cinema

[Crítica] Ninguém Entra, Ninguém Sai

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Ninguém Entra, Ninguém Sai começa com um remix de uma música de Claudinho e Bochecha. Isso pode parecer mero acaso, mas ao analisar o produto final nota-se que na verdade esta é uma mensagem para o espectador, da expectativa de humor ali estabelecido, antigo como era nos tempos do tal hit. A comédia do acaso dirigida por Hsu Chien é adaptada a partir do conto de Luis Fernando Veríssimo e mostra um motel de luxo, o Zefiros, que é posto em quarentena graças a suspeita de um vírus internacional.

A expectativa em torno do filme, até por seu material de divulgação é que esse seria um exemplar de audiovisual bem sacana, no entanto, o que se vê é um humor pastelão e voltado para o núcleo familiar mais conservador possível, claro com a inserção de um ou outro merchandising dos mais porcos entre uma interação e outra dos personagens. As piadas tem sua maioria um caráter bastante coxinha – no sentido antigo da gíria, não com a associação recente  feito com os tucanos – deixando-o parecido com os programas mais quadrados da TV aberta, em um patamar inferior de comparação até com algumas comédias da Globo Filmes, se utilizando muito de piadas infanto-adolescentes.

Apesar de se preocupar em amenizar o conteúdo para que toda a família não se escandalize com seu conteúdo, há um sem número de insinuações sexistas e um reforço de estereótipos bem pobres das minorias, em especial com os homossexuais sendo exatamente o que a o público reacionário espera desses, enxergando esses apenas como os bobos alegres, que ao serem engraçados, podem enfim fazer parte da sociedade como cidadãos comuns, ao menos em um nível baixo de aceitação do sujeito médio. O reforço dessa caracterização é sutil em alguns momentos, e em outros é completamente escancaradas.

O auge do filme é Suellen, personagem de Letícia Lima, que por sua vez passa o filme quase inteiro de lingerie. Desesperada para casar ela só aceita transar com Edu (Emiliano Dávila) se ele se casar. Suellen é a síntese do péssimo gosto do filme em satirizar com o arquétipo do suburbano, pois ela é uma mulher que mira parecer empoderada e acerta em uma futilidade estrondosa, que a permite só ver um futuro bom caso contraia matrimônio necessariamente, atrelando a felicidade a presença de dum homem para chamar de seu.

Roteiro é confuso e faz cair em contradição. Na noite fatídica faltavam quartos, pondo os personagens  Alexandre (Rafael Infante) e Margot (Mariana dos Santos) - que são sequestrador e refém – juntos forçosamente.  Depois, se fala que sobram lugares vazios, após uma reunião das pessoas sitiadas, mostrando que sequer o texto foi bem acabado.

O filme também dá vazão a um moralismo baixo e um discurso conservador, mesmo que tente parecer sexualmente diverso. As piadas são fracas e feitas sob encomenda para um público nada exigente. Os diálogos são mal construídos e as situações são muito confusas, nenhuma motivação faz realmente sentido, em especial no núcleo dos médicos que estudam a possível epidemia. A personagem de Monique Alfradique é a mais sofrida nesse sentido, uma vez que supervaloriza até a descoberta de que o ocorrido até então era apenas um alarme falso. Também sem sentido são as atitudes da polícia, que quer invadir o motel, mesmo sem motivo para fazê-lo a não ser que os agentes da lei queiram se contaminar com a pseudo doença.Não há suspensão de descrença que salve todos esses erros.

O auge da atmosfera mambembe de Ninguém Entra Ninguém Sai é no final, onde há até referencias ao reality show Big Brother Brasil, sendo que o lançamento do mesmo nos cinemas passo perto de ocorrer enquanto o programa ia ao ar, mas nem esse timing ocorreu. O longa de estreia de Hsu tem um senso de justiça condizente com o ideal de vida da classe elitista e cafona do Rio de Janeiro, se usando de um discurso falsamente libertário em alguns plots de personagens secundários, escondendo na verdade um terrível preconceito com a população suburbana e menos abastada, além de dar vazão a muitos discursos preconceituosos em sua exploração temática, o que é uma pena, pois claramente esse parecia um produto que poderia estar no mesmo hall de O Roubo Da Taça e outras boas comédias recentes, não chegando nem a arranhar a superfície desse potencial.

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Filipe Pereira

Filipe Augusto Pereira é Jornalista, Escritor, quer salvar o mundo, desde que não demore muito e é apaixonado por Cinema, Literatura, Mulheres Rock and Roll e Psicanalise, não necessariamente nessa ordem.
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