Crítica | No Portal da Eternidade

No Festival de Veneza de 2018 um filme chamou muita a atenção do público e crítica. No Portal da Eternidade é um filme biográfico pouco convencional, começa narrado pelo herói, interpretado por Willem Dafoe, que é extremamente indelicado e aborda uma mulher de maneira brusca e bruta, pedindo para que a mesma pose para uma pintura sua. O filme de Julian Schnabbel se passa em 1888 e mostra Vincent Van Gogh morando em Arles, época em que ele mais trabalhou em suas obras artísticas, época em que ele se sentia extremamente triste, solitário e desamparado por não ter qualquer compreensão do mundo e sequer dos que o amavam.

O filme não segue uma linha narrativa muito organizada, os fatos vão se avolumando a medida que o tempo passa e os encontros de Vincent são aleatórios. O encontro entre o protagonista e Gauguin de Oscar Isaacs por exemplo ocorre após ele ser expulso de um bar assim que o sujeito que permitiu que ele expusesse quadros de artistas ali perceber que ele monopolizou o espaço, colocando somente suas peças de arte. Sem nem perceber, o grito incontido do artista comunicava o seu desejo de ser exibido e ser compreendido por publico e pelos apreciadores da arte.

Schnabbel tem um registro bastante poético do processo e preparação do homem biografado, desde a lenta montagem do ateliê até a hora que o pincel toca a tela. Tudo é muito certeiro e bem pensado, com o roteiro emulando todo o processo metódico de Van Gogh. Impressiona como um sexagenário consegue encarnar tão bem uma figura icônica que morreu balzaquiana. Dafoe da um grande sopro de vida ao personagem e não é à toa que ele ganhou prêmios em Veneza, assim como Schnabbel.

Até os detalhes da rotina ordinária de Van  Gogh são bem exploradas e tem seus motivos poetizados. Vincent não tem o costume de tomar banho e peregrina sempre mesmo sem essas condições de higiene. O odor forte representa a sua derrota existencial, exemplificando o quanto ele se sente deslocado socialmente e do restante da civilização.

O filme só rompe a barreira do ordinário e passa a ser extraordinário graças a câmera estar em cima do ator , em especial quando detalha as mãos que pretensamente tanto pintaram. O ato de registrar em tela as raízes é acompanhado de uma agorafobia (e misantropia) típica do personagem. Quando cercado de crianças que fazem um passeio pela mata, ele tem sua arte mal julgada e sua reação é hostil, e selvagem, como a de um animal irracional quando está acuado.

A angustia do artista é mostrada de múltiplas formas, seja na solidão que normalmente o incorre, ou nos questionamentos a respeito de seu modo expressar sua arte. Suas válvulas de escape são pessoas distantes, como seu irmão, que vende suas obras e suas paixões são pessoas proibidas, casadas. Nesse ponto se explora bastante o desejo suicida do homem, manifestada não só no auto mutilamento, mas também no olhar desolado de Dafoe. Há uma cena em especifico muito bem feita, onde ele tenta fugir pelo descampado, onde Schnabbel mostra o quão soberbo é o seu domínio de câmera, conseguindo acompanhar a corrida do homem sem cortar, maximizando a sensação de desespero do sujeito.

Gauguin está certo em uma de suas falas, Vincent  está mesmo cercado de pessoas vis e ignorantes que se escondem atrás da falsa crença de serem simples para serem egoístas e para se sentirem superiores, então o retiro de Van Gogh até faz sentido por ele se afastar desse tipo de gente, mas sua aproximação das novas pessoas não é muito diferente. A trajetória que No Portal da Eternidade propõe é de um homem que não se encaixava na sociedade e que nem com um talento grandioso fazia sentir-se bem ou ao menos aplacado minimamente. Ser reconhecido após a morte torna-se uma grande ironia e o iguala a Jesus que só foi falado 30 40 anos após a cruz ( Edgar Allan Poe TB só foi conhecido postumamente), e de certa forma conversa  com a fé que Vincent professava. Schnabbel consegue montar um belo retrato do pintor, que conseguiu neste período analisado fazer 75 quadros em 80 dias mas que não conseguiu encontrar a si mesmo em meio a esse desespero.

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