[Crítica] Noé

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Darren Aronofsky é um cineasta jovem, conhecido por sua maneira peculiar de filmar, a de utilizar edição videoclíptica e roteiros densos com mensagens vistas tanto pela superfície da história quanto pelas camadas interiores. Outro fato notável de sua filmografia é o enorme apreço que dá ao visual, utilizando-se da acuidade das imagens para demonstrar sua visão de mundo, e, por meio desse arroubo, abre algumas dubiedades e duplicidades de interpretações. Em Cisne Negro, Requiém Para um Sonho e O Lutador ele tratava de determinados tipos de perversões, todas ligadas à obsessão. Em seu mais recente filme, de altíssimo custo, a obsessão está presente não só no roteiro, mas também concerne ao pensamento de teólogos e religiosos ao retratar a história de um personagem tão canônico quanto o capitão do Senhor.

O título da obra é Noah — Noé no Brasil, um dos poucos nomes traduzidos com a grafia que Joaquim Ferreira de Almeida amputou na versão da Bíblia Sagrada — por capricho e distinção de gênero, pois a intenção do diretor era realizar um filme épico, que, por tradição e convenção, leva em si o nome do protagonista, acima de qualquer dado técnico. Mesmo que os assuntos discutidos sejam até maiores que a trajetória pessoal de qualquer personagem, como a questão da escravidão em Spartacus, e a trinca injustiça social, engano e vingança em Ben Hur. Talvez aí resida a maior polêmica entre os fiéis que esperavam uma história literal das “escrituras sagradas”, ainda que a história seja menos “deturpada” que muitas interpretações de sacerdotes atuais.

O cinema de Aronofsky não é conhecido pela obviedade em relação à interpretação de suas histórias, o que abre um precedente para um sem número de discussões. Uma das possibilidades dentro do roteiro de John Logan e do próprio diretor é a preocupação não só em contar a história de Noé, mas também em resumir em uma amálgama o Gênesis — primeiro livro dos pentateucos que conta a origem da humanidade e do mundo segundo essas crenças particulares. Há uma preocupação legítima com a nomenclatura das criaturas canônicas, e termos como anjo e Deus são evitados, exceto pelo diálogo entre a parentela de Noé no qual se ressalta que ela não ouviu diretamente a voz do Criador.

Outra questão espinhosa é a dos ditos Guardiões, comumente associados a “anjos caídos” (em outras palavras, o exército de Lúcifer) que seriam seres de luz enviados ao Éden para vigiar Adão. A associação é totalmente errônea até pela ordem dos fatos, visto que os seres não resistem e interferem na criação e, por isso, são castigados por quem antes lhe tinha dado todos os poderes — assim como aconteceu com o homem, o que mostra uma uniformidade no modus operandi do Criador.

No decorrer da trama a imagem de “supremo punidor” do Criador é desconstruída por meio do perdão, lembrando-se, claro, que toda a maldição sobre eles e os homens é consequência do pecado de Adão: os homens foram obrigados a trabalhar para ganhar o seu sustento, consequência da perda da inocência. Quanto aos Guardiões, perderiam seus aspectos de luz e seriam compostos de terra e pedra. Eles retornam pela benevolência de Deus, o que definitivamente descaracteriza a ideia de eles serem criaturas diabólicas, até porque a raiz do mal não é determinada por um único avatar e sequer isenta o homem de tê-la; o mal é algo inerente ao homem, o que o difere dos outros animais, e como nos dizeres bíblicos, cabe ao homem dominá-lo.

A serpente é parte do homem e simboliza a selvageria inerente ao humano, por isso Noé titubeia. O melhor aspecto da história certamente é a criação do ideário do herói e a fidelidade e corrupção humanas. O Noé de Russell Crowe e Aronofsky reúne arquétipos dos principais heróis do Gênesis. Ele tem em si o óbvio pioneirismo do primeiro homem de Adão, tem o bom sacrifício de Abel, invejado pelos seus iguais, numa também óbvia referência à Caim. Talvez a figura mais inspiradora para o perfil do personagem seja a do Pai da nação semita, Abraão. As referências vão desde a culpa por não conseguir salvar os outros homens da destruição e, claro, ao sacrifício de sua descendência, com um fim parecido com o do conto bíblico, mas diferente quanto ao meio. Noé corre até a aldeia dos povos que descendem de Caim, com quem ele travava uma eterna rivalidade, e lá vê o modo como os homens vivem, onde a ganância supera até o instinto de família. Tal corrupção faz com que Noé questione a sua missão e entenda que o que corrompeu a vida na Terra foi a interferência humana. Se os filhos de Caim pecavam daquela forma, ele talvez fosse capaz de fazer aquilo, e a conclusão de que essa não deveria ser uma questão incontestada é um dos momentos mais emotivos da fita.

Outro elemento positivo, certamente o ponto máximo do roteiro, fez com que o aspecto mais impressionante da película fosse tão valorizado. A forma como Noé se comunica com o Criador não é didática, mas feita por meio de sonhos e visões — o que gera ainda mais comparações com heróis bíblicos, como o profeta Daniel. A inundação que aparece nos sonhos é belíssima, especialmente quando dela surgem os animais que são depois embarcados. Os efeitos especiais compõem um belo recurso narrativo e  um deslumbre visual singular, com 3D comparável aos mais esperados nesse aspecto, como A Invenção de Hugo Cabret e As Aventuras de Pi, superando até os dois primeiros.

O final é esperançoso e rearranja de forma atual os argumentos bíblicos, reapresentando seus preceitos de forma bastante fiel. Claro, tomando as necessárias liberdades e salientando aspectos comuns ao espectador comumente consumidor dos filmes de Guillermo Del Toro e Peter Jackson, sem ignorar o background antropológico dos produtos anteriores de Aronofsky.