Crítica | Nós

Após o sucesso avassalador de Corra!, Jordan Peele volta ao cinema de horror, situando sua historia em 1986, em Santa Cruz, numa tradicional feira de praia com parque temático, barracas com competições etc. Nesse cenário, a família de Adelaine brinca e se diverte e a menina interpretada nesta fase por Maddison Curry se perde rapidamente da vista de seu pai, e vai parar em uma sala de espelhos, onde vê uma outra versão de si. Nós começa onírico, um thriller estranho e que brinca com fantasias e auto imagem.

O tempo passa, Adelaine  cresce e se torna Lupita Nyong’o, casada com Gabe (Winston Duke), tendo dois filhos. Em um dia de  férias, a família resolve ir a Santa Cruz e velhas lembranças voltam. Entre piadas internas e pequenos conflitos comuns a um grupo de parentes, a mãe tem sentimentos premonitórios e sensações horríveis, sem ter certeza se isso é fruto de algo que já viveu ou não, e esse sentimento de duvido é algo muito bem explorado pelo roteiro que Peele escreveu.

Um dos fatores que faz Nós funcionar como peça de terror é a música de Michael Abs. Os acordes acompanhados das muitas cenas noturnas funcionam como uma ópera de terror muito bem pensada, que reúne elementos de Nosferatu de F. W. Murnau até  as fitas dos horror  movies dos anos 80, filmes b conduzidos por gente como John Carpenter, Tobe Hooper e outros mestres do horror da época, incluindo Dario Argento. Além disso, há uma tecla quase sempre batida, referente a um versículo bíblico de Jeremias 11:11, que diz em versões mais recentes da Bíblia Portanto assim diz o Senhor: Eis que trarei mal sobre eles, de que não poderão escapar; e clamarão a mim, mas eu não os ouvirei. Esse desalento é bem pontuado nos momentos finais do longa, onde toda a trama que se assemelha a Além da Imaginação (Twilight Zone no original) deságua.

O resultado final é um filme de terror que se vale pouca de fórmula, cuja linguagem é sofisticada e remete a memórias reprimidas e a visões sobre a auto imagem que cada individuo tem, mesmo que essa percepção varie conforme o tempo. Nesse ponto, a trama guarda semelhanças a recente terceira temporada de True Detective, onde Wayne, o detetive de Mahershala Ali tem, ainda que nesse caso, haja  uma explicação mais didática para as crises existenciais do agente da lei, enquanto no filme, haja todo um mistério que é em parte explorado durante as quase duas horas de duração.

Tal qual a crença cristã prega, aparentemente os ciclos de maldição ocorrem de novo com Adelaide, com repetições de erros dos pais em não vigiar suas crianças. Ally se perde de seu pai, que era alguém relapso, e por mais que ela e Gabe não sejam assim, o infortúnio não deixa de ocorrer, e em meio a todo stress que a estranha perseguição que sofrem, acontece também a desatenção sobre as crias, e isso tem conseqüências graves, com reabertura de velhas feridas.

Adelaide entra em pânico, com a confluência de coincidências e perseguições e Peele usa de novo o componente do racismo como forma de horror e até de humor involuntário. Além disso, há claramente uma nuvem carregada pairando sobre os personagens mesmo antes do estranho levante dos “inimigos” ocorrer, onde os sentimentos ruins são poetizados. Visualmente o filme é lindo, com o cineasta utilizando as sombras como predomínio na linguagem, causando a invisibilidade dos seres que antagonizam a família.

Mesmo que não seja panfletário e que sua crítica foque mais na humanidade em geral, a historia reflete sobre a visão que o estadunidense tem sobre si mesmo, mostrando que ela é incomoda e que o senso de justiça do americano não é insensível quanto a postura escravocrata e imperialista que seguiram pós independência da Inglaterra. O processo de Desacorrentamento é mostrado como algo natural, apesar de grotesco e nojento, e a condução de Peele faz até o gore soar como algo não deslocado, fazendo parte da equação que mistura elementos bem dissonantes, desde os clássicos de zumbi de George A. Romero, conceitos de quadrinhos como o Super Homem Bizarro, só que de maneira adulta, quebrando a tensão eventualmente com piadas internas e falas repletas de sacadas espertas, perturbador e preocupado com a ganância proveniente dos poderosos, que são tão envaidecidos que não conseguem lidar sequer com a finitude de sua soberania. Nós abre espaço para múltiplas interpretações, mas é bem mais que um simples filme de mistério, sendo reflexivo, divertido e profundo.

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