Cinema

[Crítica] Nosso Fiel Traidor

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O início do filme se dá em terras gélidas de reações mortas. Mafiosos russos buscam eliminar alguém e sua família, há um tiroteio, há uma fuga; há exatamente isso, informação. Tal como um maquinário, o que se vê ocorrendo em tela é de forma automática e apática. Não houve algo que fizesse o público minimamente se importar além da estranha ideia: tem coisas acontecendo, então eu devo sentir algo. E infelizmente a ineficiência do desenvolvimento não se limita a esse trecho inicial; há muito mais pela frente.

Nosso Fiel Traidor é um filme de Susanna White (Nanny McPhee e as Lições Mágicas) e roteiro de Hossein Amini (Drive, Branca de Neve e o Caçador) baseado na obra de John le Carré, o mesmo autor de O Espião Que Sabia Demais, cujo aclamado filme homônimo foi baseado. Nessa nova empreitada, o casal formado por Perry (Ewan McGregor) e Gail (Naomie Harris), um professor de literatura e advogada, tiram férias após problemas com seu casamento. Nessa escapada, Perry conhece, por coincidência (palavra-chave nessa história) Dima (Stellan Skarsgård), um russo que logo revela querer que Perry entregue informações sobre a máfia para a inteligência britânica em troca de segurança para ele e sua família.

E esse, é claro, é o tema principal do filme: família. Desde a cena inicial, até Dima buscando proteger sua mulher e filhos e Perry e Gail lidando com seus laços matrimoniais, assim como Hector (Damian Lewis), o representante da inteligência britânica que apresenta um histórico familiar que administra com frieza para garantir a boa execução de seu trabalho. Lendo até que pode parecer que há chance de ser interessante, mas logo as oportunidades se esvaem em más escolhas. A construção do personagem de Perry, por exemplo, se faz como a de um cavaleiro de armadura brilhante. Ele está lá no momento certo, na hora certa; seja para impedir um estupro, agressão doméstica, ou ser o entregador de informações sigilosas. Os motivos? Nada realmente concreto. São essas atitudes, coincidências, que o roteiro busca para provar o valor do personagem e mover a história, que talvez pudessem até ter algum peso, fosse o roteiro bem trabalhado, ou alguém quisesse atuar além do funcional.

Os personagens que mais se aproximam de alguma profundidade são os coadjuvantes Dima e Hector. Esse segundo busca cumprir seus objetivos, busca justiça, e para isso batalha contra as burocracias de um sistema que ele sabe não ser feito para dar certo. Skarsgård, por outro lado, apresenta uma forte ligação com sua família e personalidade caricata, mas presente. Também é o que apresenta arco narrativo mais completo, mas que ainda assim é, em conjunto com o resto do filme, estéril. Tal como a montagem que segue o básico de cortes rápidos para (teoricamente) garantir a atenção do público. A fotografia de tons frios e lens flares certifica o visual do blockbuster convencional, da mesma forma que a música genérica. E apesar de em alguns poucos momentos ocorrerem cenas por abordagens diferenciadas, o valor logo decai quando se observa o todo.

Nosso Field Traidor é composto por uma fórmula padrão e execução medíocre, e aqui é necessária uma clarificação: o termo medíocre anda sendo utilizado como algo pior do que “ruim”, mas não é esse o verdadeiro significado da palavra. Medíocre é o médio, o morno, o que tanto faz. O que deveria ser tenso, emocionante e triste não o é, apesar de que em teoria o que é mostrado em tela devesse ser. Isso se dá pela perceptível falta de compreensão em perceber por qual motivo sentimos o que sentimos em histórias. Quando não há a preparação e fundamentação de personagens e contexto para o que estamos prestes a ver, tudo não passa de informação. E informação por informação são mais algumas imagens e sons que logo serão esquecidos.

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Texto de autoria de Leonardo Amaral.

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