Crítica | O Advogado

Filmes e romances bem-humorados, geralmente sobre situações diferentes a essa jocosidade histriônica tendem a pagar um certo preço, por isso, visto que a fidelidade a essência do que é contado é traída por uma dramaturgia que vai de oposto a ela. Geralmente, filmes mal compreendidos assim dividem as pessoas num tremendo impasse ideológico que o tempo não consegue cessar – vide alguns filmes de super-herói de ultra apelo popular (hoje em dia) que, ao se levarem a sério demais, subtraem boa parte da carga infanto-juvenil que os mesmos levavam e carregam ainda em suas personalidades originais, nas HQ’s.

Se para alguns isso faz aprofundar esses caráteres e o mundo preto-e-branco de bem versus mal deles, para outros, e mais nerds, como são chamados, a nostalgia bate tão forte que logo eles tem de ir correndo matar saudades no beber saudosista da fonte autêntica do material. Noutros casos, longe do subgênero do momento, é válido narrar uma separação de casais, por exemplo, apenas sob a ótica do drama, ou pode-se ousar enxergar tudo pelo viés do cômico? Haverá limites para a experimentação na abordagem com uma premissa, qualquer?

Em O Advogado, não sentimos (por um tempo) impasse algum perante esta pergunta, muito bem resolvida no começo por Yang Woo-Seok, dada em especial a uma manobra particularmente expressiva para o debute de um cineasta: O belo equilíbrio entre a seriedade que uma situação específica exige, e a comicidade já mencionada antes que pode brotar dela, devido também ao positivismo das personagens inseridas neste contexto histórico de um mundo regido por suas jurisdições – daí o nome em questão não poder ser mais assertivo. Uma vida nos é contada, e nela conhecemos um homem.

Um estudo de personagem é feito, tal no majestoso Cidadão Kane e no ótimo e esquecido filme brasileiro O Bravo Guerreiro, só pra não se perder a chance de citá-lo aqui. Contudo, esse personagem (baseado na vida do ativista de direitos humanos Roh Moo-Hyun, que mais tarde iria virar o presidente da nação em 2003), o carismático Song (homônimo ao próprio ator que lhe dá vida, o grande Song Kang-ho) não leva o mundo sobre seus ombros, nem mesmo possui grandes ou faraônicas ambições de vida, lutando somente para levar uma vida digna e sem os desafios financeiros que todos nós tememos, mesmo enfrentando os problemas de hoje, e os que virão para buscar a coragem e a versatilidade do ser.

Sedento por grana, tal qual o Motorista de Táxi que o Song ator iria interpretar, em 2017, o ex-juiz, e homem de família que se cansou da profissão nos tribunais, quer aproveitar a expansão do mercado imobiliário na Coréia do Sul, no final dos anos 70, para ganhar mais dinheiro se vendendo como especialista em registro de imóveis. Uma empreitada de risco, mas que se empenha sempre com um sorriso no rosto. No começo, suas investidas são excessivas e atrapalhadas, tentando entregar seus cartões de apresentação sem muito sucesso na empreitada, o que garante boas risadas e a expectativa nossa que ele consiga ser bem-sucedido, afinal, apenas está dando o seu melhor.

Uma história assumida de superação pessoal destituída do sentimentalismo sem fim de um À Procura da Felicidade, o que garante a primeira hora de O Advogado uma certa inteligência superior ao filme americano, com Will Smith. Song apenas quer se dar bem no seu novo negócio, prosperando com o apoio de sua família e sócios, até que o complicado momento político que uma das Coreias estava enfrentando vem bater na porta do seu escritório de tabeliães, e vem pra mudar qualquer opinião mais entusiasmada sobre o filme.

Isso porque, no começo dos anos 80, o país estava sendo sacudido por protestos estudantis contra a falta de representação popular num governo amplamente contraditório, aos interesses sociais. Quando um desses estudantes, chamados de comunistas e subversivos é pego e torturado, o destino parece levar Song de volta pra corte a defender o seu primeiro grande caso, não mais como o juiz que foi, mas desta vez como o advogado que tanto tenta ser. A partir disso, o filme dá a entender que irá se fortificar como um legítimo drama de tribunal, mas é nesse momento, quando ficamos presos entre réus e o juiz das causas, que Yang Woo-Seok assume o dramalhão e não consegue mais se livrar dele, até o final.

Pena. Uma digressão emocional muito forte, beirando o mau gosto, nos assola a ponto que a sensação parece nos avisar que estamos diante doutro filme, a partir de certo ponto completamente estranho a todo o resto. Com certeza a intenção foi essa, exaltando assim o peso da situação de intolerância que a população sul coreana passou, nacionalmente, num governo e instituições jurídicas tão corrompidas quanto as dos EUA sob o punho de Donald Trump, ou as do Brasil de direitos civis em constante curso temerário. De qualquer forma, essa troca de abordagens na troca de situações ao longo da projeção prova que, se há ou não limites para o tratamento de uma situação no Cinema, seja ela qual for, cada caso é um caso, e em O Advogado, os limites moram apenas nas habilidades narratológicas do seu diretor principiante.

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