Cinema

[Crítica] O Agente da U.N.C.L.E.

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Agenda da UNCLE 1

Ainda na esteira de remakes dos seriados sessentistas, Guy Ritchie se encarrega de apresentar uma versão em longa metragem para o show de TV homônimo, exibido entre 1964 e 68 e continuado por alguns telefilmes. A nova roupagem compreende um filme de época, filhote da Guerra Fria, sustentado a partir do charme evocado do programa protagonizado por Robert Vaughn e David McCallum, tomando por base também a tensão presente na disputa ideológica dos Estados Unidos com a União Soviética.

O mote do roteiro envolve uma cooperação entre as duas partes dissonantes, como se somente no campo imaginário de uma aventura escapista pudesse ocorrer uma interação não beligerante, semelhante demais ao modo dque Alan Moore propôs em seu Watchmen, e que Zack Snyder claramente não entendeu em sua versão para o cinema de 2009. Ritchie reprisa os mesmos maneirismo visuais de Sherlock Holmes e Revolver, ainda que não consiga imprimir neste Agente da U.N.C.L.E. o mesmo espectro sanguíneo comum a sua filmografia, tendo momentos de absoluta frigidez em tela.

O estilo de filmagem se vale de muitas tomadas escuras, que por sua vez, remetem a ausência de luz da época, gerada pela ambiguidade de seu cenário político. A Berlim Ocidental dos anos sessenta é completamente estilizada, o que se explica no produto original, pelo costume de demonizar os países socialistas. A dubiedade é manifestada até na escolha de sua musa inspiradora, a misteriosa Gaby, que tem na beleza de Alicia Vikander um deleite visual pouco expositivo, mas ainda assim, arrebatadora, semelhante a muitas mulheres fatais de filmes noir.

A tradução da rivalidade econômica entre as partes é feita através da caracterização de Napeleon Solo e Illya Kuriakin. A escolha de Henry Cavill para executar Solo, repete a fórula do realizador britânico em usar figuras de popularidade crescente para ascender a fama de seus novos produtos, como com Downey Junior em Sherlock Holmes, o que de certa forma até repete o êxito. O mesmo não se pode dizer de Armie Hammer, que nem tem no falso sotaque a falha mais gritante, já que o argumento assume os soviéticos como fruto da mesma moralidade americana, inclusive nos conceitos ligados ao matrimônio, descaracterizando completamente o abismo de ideais dos dois distintos segmentos populacionais.

A filmagem possui estilos diversos em si, entre eles, um visualmente muito semelhante ao visto em Sin City, especialmente nas cenas de perseguição de carro, mostrando a preferência de Ritchie pelas cópias a Quentin Tarantino, mas na parte mais superficial das suas fitas. As brigas constantes entre Illya e Solo enfraquecem o plot,fazendo as cenas de suspense parecerem banais, soando assim artificiais até os momentos de luta e tensão sexual.

Agenda da UNCLE 7

O roteiro melhora um bocado da metade para o final, a despeito até dos estereótipos forçados. A menos a trama de espionagem é bem urdida, lembrando os bons momentos de Intriga  Internacional e dos filmes de Sean Connery como 007. Há um cuidado, nesse período em retirar da URSS a figura de vilã, retratando até mesmo os modos governamentais dos EUA como algo bem distante do que o discurso moralista comum aos presidentes fazia, buscando uma neutralidade que mesmo soando forçada, funciona em alguns niveis, se levar em conta as intenções do texto.

Apesar das muitas influências, o filme de Ritchie possui uma personalidade e identidade próprias, não caindo no erro de parecer uma cópia de tantos outros remakes de franquias antigas. No entanto, carece de fervor e inspiração, sobretudo por parte do elenco, que parece estar a todo momento em modo automático de atuação. Apesar de a suspensão de descrença não cair por completo, a proposta ambiciosa de apresentar uma neutralidade em meio a uma época de extrema ambiguidade carece de seriedade e de uma melhor construção ética, que era uma espécie de mea culpa dos produtores da série, e que neste, soam absolutamente anacrônicos e vergonhosos, não consertados sequer pelos remendos feitos pela ação britânica, que visa equilibrar forças.

Filipe Pereira

Filipe Augusto Pereira é Jornalista, Escritor, quer salvar o mundo, desde que não demore muito e é apaixonado por Cinema, Literatura, Mulheres Rock and Roll e Psicanalise, não necessariamente nessa ordem.
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