Crítica | O Anjo Exterminador

O Anjo Exterminador Poster

Clássico de Luis Buñuel, O Anjo Exterminador, traz uma forte crítica às instituições que pervertem a vida social, embalado em uma irônica mensagem de amor

O famigerado conceito de “filme de arte” foi desvirtuado de sua ideia inicial, e hoje é usado para pretensamente separar dentro de uma série de filmes aqueles que têm valor artístico e aqueles conhecidos como “filmes comerciais”. Essa abordagem não é só esnobe como errada. Filme de Arte, no sentido estrito, é aquele ancorado em correntes artísticas. Aqui, a corrente é o Surrealismo, envelopado em uma comédia trágica.

A trama move-se como uma alegoria social. Por algum motivo, 20 pessoas que foram convidadas para um jantar em determinado momento simplesmente não conseguem sair e voltar para suas casas. Nada físico as impede. Ao se depararem com a própria inércia, surgem as desculpas que os convidados da festa dão uns aos outros sobre por que não saírem. Um resolve simplesmente ficar mais um pouco, outro resolve esperar o amigo por educação, outro resolve ficar por algum motivo, todos ficaram também e ao final, pelo fatalismo gerado. E, nisso, o que se restringia à mansão como um todo vai se reduzindo à sala apenas. O ápice do confinamento ocorre quando o mordomo também está restrito à sala.

A primeira cena mostra um jovem criado, Lucas, saindo da casa por algum motivo, e aos poucos todos os demais criados (menos o Mordomo de aparência aristocrata) vão saindo da casa às pressas. Primeiro, têm alguma desculpa, estão atrasados para alguma coisa, mas eles não sabem bem o porquê estão saindo.

Aos poucos, com o desespero da impotência, a fome e a sede, os convidados vão se revelando e mostrando quem realmente são enquanto se despem dos ternos e de suas condutas sociais, traindo seus maridos, roubando, maltratando.

Existe um histórico político em torno do filme que mostra a burguesia de maneira satírica sendo reduzida a animais conforme se expõem à situação. Inclusive, demonstrando seu desprezo pelos pobres numa fala que expressa esta separação passivo-agressiva. Em determinado momento, ao comentar uma noticiam uma das personagens diz:

“Vi um descarrilhamento de trem, mas não senti pena das pessoas lá. Acho que os pobres têm mais resistência a dor e sofrimento do que nós, então não me importei. Não é como a morte do príncipe Fulano. Ele sim… Tanta classe, que sua morte foi insuportável”.

A crítica é política e à instituição da família, mas busca atingir a Igreja Católica e as instituições sempre que possível. Logo no início, cordeiros são sacrificados para o bem da burguesia. O Cordeiro é um símbolo poderoso nas instituições judaico-cristãs, com papéis diferentes em cada uma das religiões de deserto (Islamismo, Judaísmo e Cristianismo), mas presente em todas. O Cordeiro na doutrina cristã é aquele que morre para purificar os pecadores, sendo Jesus de Nazaré o principal cordeiro.

Fora do contexto político-ideológico, há uma bela mensagem cotidiana. Ora, quantas vezes simplesmente achamos que algo maior nos impede de fazer algo? Uma preguiça, um fatalismo, uma descrença e pessimismo sobre os caminhos da vida, vergonha. Tem algo que simplesmente nos impede de fazer coisas das quais somos plenamente capazes e isso nos angustia fortemente. Não à toa, quem parece ter sido poupado do sofrimento são aqueles que apresentaram alguma empatia na cena inicial, em que um dos mordomos cai enquanto os convidados riem, e também quando um jovem casal, antes de tudo, quer apenas ficar junto. De acordo com Buñuel, a salvação está no amor, uma resolução interessante para um filme com uma postura tão pungente. A solução extrema dessa angústia que ancora nossas vidas é a depressão, que não raramente leva ao suicídio. É engraçado também como a quebra do feitiço ocorre na aceitação da normalidade inexistente, aceitando a realidade absurda e fazendo dela o normal, por mais bizarra que seja.

Texto de autoria de Marcos Paulo Oliveira.