[Crítica] O Bebê de Bridget Jones

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Começamos essa análise com uma comparação que pode, ou não, soar absurda: assim como aqueles episódios finais da saga Harry Potter que evocavam todos os elementos e pontos nostálgicos para aquele público que cresceu ao lado daquela gama de personagens, O Bebê de Bridget Jones é também quase que exclusivamente voltado para o público (especialmente o feminino) que vivenciou lá no início dos anos 2000 as desventuras de uma mulher sonhadora, indecisa e desajeitada, cujos desabafos eram registrados em seu diário enquanto dois galãs disputam seu amor. Quinze anos depois e agora com sua personagem-título na casa dos 40, é consciente o fato de que o apelo de Bridget é bem menos universal (nota-se pelo pouco alarde do filme) e quase que unicamente centralizado nos que, tal qual nossa heroína, viram suas rugas aparecerem no rosto ao longo dos anos.

Prova disso é a forma como O Bebê de Bridget Jones busca despertar aquela empatia que, se não compartilhada pelo espectador novo (e que nasceu e não cresceu em meio a atualidade tecnológica registrada pela obra), será notada em sua completude pelo espectador já ambientado com o que é a vida de Bridget. E o mais reconfortante em meio a isso tudo é notar que a própria Renée Zellweger, intérprete de Bridget e longe das grandes telas desde 2010, demonstra ter total compreensão dos efeitos da passagem do tempo e (pasmem!) de uma gravidez inesperada que irá botar em xeque o suposto amadurecimento da personagem após mais de uma década.

Com todo aquele jeitão de comédia americana para ser apreciada no fim de semana, o humor de O Bebê de Bridget Jones é calcado especialmente na dicotomia entre os acontecimentos do passado e um presente não exatamente satisfatório para aqueles rostos que conhecemos. Sem Hugh Grant desta vez (que recusou participar do projeto devido a insatisfação com o roteiro), entra Patrick Dempsey como Jack, aventura de uma noite da vida de Bridget e novo “pau-a-pau” com Mark Darcy, interpretado por um Colin Firth mais britânico do que nunca. E partindo de uma mulher como Bridget Jones, já podemos ter uma ideia de como a incerteza sobre quem seria o pai de seu filho inesperado poderá render situações tão inusitadas quanto.

E é curioso notar que, mesmo com suas modernizações narrativas (o tal diário original de Bridget agora é substituído por um tablet), O Bebê de Bridget Jones reserva muito do humor peculiar (e bastante inglês) ao qual nos rendemos lá no primeiro filme de Sharon Maguire, evidenciando ainda mais a dinâmica entre passado e futuro promovida pelo roteiro de seis mãos: Helen Fielding, Dan Mazer e Emma Thompson, essa última impagável como a doutora Rawling. E isso sem nenhuma recusa em abraçar todos os clichês que o gênero tratou de solidificar para si ao longo dos anos. Mas para Bridget Jones 3, a previsibilidade é o que menos importa.

E mesmo que Bridget, Darcy e cia. não tenham mantido o mesmo apelo desde o início de tudo (o padrão do gênero mudou ao longo dos anos), essa nova sequência tardia revela que havia mais fôlego a ser posto pra fora do que na infeliz continuação de 2004, Bridget Jones: No Limite da Razão. Se esse retorno funciona, é graças ao desapego do medo da obra em evidenciar suas próprias rugas. O Bebê de Bridget Jones é realmente uma delícia.

Texto de autoria de Rafael W. Oliveira.