Cinema

[Crítica] Beduíno

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Júlio Bressane é um diretor cujo cinema dialoga demais com o hermético e utópico, através da poesia em narrativa cinematográfica que vez por outra funciona e em outras, soa pretensiosa. O Beduíno fica no limbo, servindo de comentário metalinguístico sobre a existência e feitoria da arte, fazendo uma ode ao ostracismo de conteúdo de discussão.

Apesar desse limbo em que se insere o atual filme do diretor, é um bocado complicado ficar indiferente com a filmografia experimentalista do cineasta. Nesse episódio, Bressane se utiliza de dois atores experientes, Fernando Eiras e Alessandra Negrini, tentando através do trabalho de ambos soar reflexivo, se valendo da absoluta e total entrega do diminuto e talentoso elenco.

Negrini funciona como musa do diretor, mais uma vez, como havia sido em Cleópatra e Erva do Rato. Esse aspecto é constante na carreira do diretor, tornando até a exposição da nudez da bela atriz em algo não gratuito e sim bastante íntimo. O formato narrativo em esquetes faz sentido normativo ao final, ao de revelar a realidade tangente do filme, além de conter referências a metafísica.

O script do filme que tem apenas 75 minutos de duração se vale de situações limite, demonstração de violência, fantasias sexuais e de estudo de alma e intimidade humana, passando por desejos comuns como luxúria, volúpia e liberação de libido, bem como os mais execráveis como descontrole homicida, misantropia e misoginia.

A trabalho de arte ministrado por Moa Batsow é bastante esmerado, mostrando que quando o produtor se dedica a sua função de origem há muito mais espaço para brilhar, ao contrário do visto quando foi diretor em A Origem do Mundo. O fato de ser um longa metragem episódico ajuda a ambientar o público na questão da hiper exploração de metalinguagem, que por mais que não tenha discussões muito elaboradas politicamente, ainda reverencia o progresso e o livre pensar, aspecto fortificado pela multiplicidade de maneiras de filmar a sua história. Bressane apresenta um filme de linguagem alternativa, que funciona na maior parte dos momentos.

Filipe Pereira

Filipe Augusto Pereira é Jornalista, Escritor, quer salvar o mundo, desde que não demore muito e é apaixonado por Cinema, Literatura, Mulheres Rock and Roll e Psicanalise, não necessariamente nessa ordem.
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