Crítica | O Cheiro do Ralo

O Cheiro do Ralo segue como um dos milhares de filmes sobre o que esconde a superfície; a diferença é o nível de taradice e tudo aquilo que a letargia esconde, nos escombros de meia-dúzia de personagens presas na melancolia de suas vidas. A história combina em gênero, número e grau com o cinema visual de cortinas fechadas, e desejos ocultos de Heitor Dhalia, o cineasta de Nina, com Guta Stresser. Aqui, seu arquétipo de um ser urbano perturbadamente verossímil cai nas mãos de Selton Mello na deprimente realidade caquética de Lourenço, o dono de uma espécie de antiquário cujo ralo fede pra caramba – analogia a uma vida sem propósito e que se esvai sem esperança, tal o clímax incendiário e frenético de Barton Fink – Delírios de Hollywood, a comédia dramática premiadíssima em Cannes dos irmãos Coen.

Como denota-se a qualquer um projeção afora, há sim muitas semelhanças e convéns na obra literária e quadrinistica de Lourenço Mutarelli com a filmografia satírica e hipócrita dos irmãos. Numa bela arte da adaptação, e fica difícil pensar em alguém melhor que Dhalia para traduzir no Cinema a obra de Mutarelli, o cara conseguiu transformar os vícios de um escritor pela letargia humana num teleporte nosso para um universo paralelo de bundas, de perversão sexual que não precisa ser dialogada, ou às vezes mostrada para sentirmos que está presente nos olhos, nos gestos, na sugestão irônica de um movimento; um cosmos drenado pela mentira de um comerciante, pelo consumismo, pela materialidade óbvia das coisas, pelos artefatos antigos destituídos de sentido.

É justamente isso que a superfície desses artefatos e dessas bundas propiciam, o perceber de forma pesada a passagem do tempo, e o propiciar de um típico escapismo momentâneo diante do nada que somos. Como todo homem que vai contra a canção de Chico Buarque sobre a roda-viva que é nossas vidas, o solitário Lourenço é um cara já enfiou o pé na jaca faz muito, e desiste da ideia de casamento em cima da hora pra se entregar aos fetiches, ao preço de tudo, a escrotidão de seus pensamentos de carência, e auto-engano. O que vier é lucro pra quem não tem nada a perder, noção esta materializada nos aparelhos que compra de gente tão estranha, e rotineira, que se tornam pra ele tão invisíveis quanto o relógio de pulso, a vitrola ou o faqueiro de prata inúteis que colocam sobre a mesa de seu escritório, num desses dias intermináveis, e letárgicos.

Vide a bela mise en-scène do filme de Dhalia principalmente nesses momentos de troco comercial ou vida privada, nesse ambiente profissional ou doméstico, num necessário trabalho de direção de arte apuradíssimo sobre um visual que converge na realidade deliciosamente falida e obscura da história. Mais que em Nina, O Cheiro do Ralo é o apuro que a direção de Dhalia precisava para concomitar melhor com a essência propositalmente artificial de seus contos muitas vezes sobre o vazio ou o nada, na tela. “Você não tem nada pra me oferecer”, ele diz para a mulher de sua vida. “E eu também não”. Até a violência da noiva, de um cliente, do encanador, a violência que impulsa um desejo irrefreável de tão animalesco é algo a se valorizar numa vida que se esvazia, a cada dia que passa, e começa a feder pelo marasmo aonde se banha.

Um legítimo conto de horror com uma maquiagem muito bem feita de comédia dramática melancólica, algo raro no cinema nacional recente. O espectador bobo deixa se enganar pela roupagem, fácil, mas é só pensar um pouco sobre o que esconde a superfície do filme de Dhalia, e dos quadrinhos de Mutarelli que a verdade vem à tona: O fedor vem de algo terrível que nem odorizantes nem coisa mundana nenhuma chega a disfarçar, ou ainda, muito menos exterminar.

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