[Crítica] O Clã

O Clã 1

Novo suspense do excelente diretor argentino Pablo Trapero – o mesmo de Elefante Branco e Abutre – e baseado em fatos conhecidos e famosos na Argentina sobre a gangue Puccio, família conhecida por sequestrar e matar várias pessoas, O Clã é uma história sobre obsessão e disputa familiar, que se situa historicamente em um período turbulento da história de seu país, com o lento e gradual retorno da democracia aos moldes normais, sem o abuso das ações militares sobre a população, ao menos em um nível liminar.

A trama é contada sobre dois olhares, a de Alejandro (Peter Lanzani), filho homem, que seria o herdeiro natural das atividades, e o patriarca e responsável por ser o cérebro da operação, Arquimedes Puccio (Guillermo Francella), um homem frio, como a natureza de seu trapalho de sequestros exige.

O  roteiro de Trapero, Julian Loyola e Esteban Student explora a contradições morais, tanto dentro do âmbito familiar pseudo religioso (e hipócrita), até a questão do envolvimento de homens poderosos e ligados a um governo repressor em algo que destrói o ideário do conservador, fazendo pouco da sensação de segurança, debochando da vida  dos homens, só por serem as vítimas pessoas abastadas, sem graves problemas financeiros.

Quase todos os seres que habitam este mundo tipicamente masculino, apresentam defeitos terríveis para quem deveria ser prioritariamente frio, deixando a insegurança transparecer a todo momento. Exceção a regra é Arquimedes, um homem intransponível, resoluto e que não se permite ter maiores sensações além das que o dever lhe chama. Suas demonstrações de carinhos são igualmente ríspidas. O modus operandi precisava disso, e quando o pai cede aos caprichos emocionais que lhe são impostos, começa a derrocada dos Puccios, a despeito até da chegada de reforços externos, como na liberação da prisão de Maguila (Gastón Cocchiarale) seu outro filho, mais experiente que Alex.

As personagens femininas não praticam qualquer ação de comando, remetendo aos tempos de filmes mafiosos em voga, na esteira de O Poderoso Chefão, onde o papel feminino é completamente subalterno, em que os pecados são exclusividades dos homens ativos. Tal aspecto pode ser encarado como problemático para plateias atuais, mas representam bem a realidade opressora da época, ainda mais comum em um âmbito familiar machista.

A demonstração do fracasso das operações representa também o engessamento das operações, frágeis em essência, fadadas ao fracasso, já que só eram certeiras quando não apresentava-se qualquer revés a sua frente. A trajetória de declínio se anuncia a partir da primeira cena, e a escolha de Trapero por começar seu drama a partir de um momento onde isso fica explícito é um enorme acerto, funcionando como denúncia, mas sem demonizar os envolvidos passionalmente na série de crimes. A cena final também carrega uma tremenda força visual, violenta, real, fazendo um resumo sentimental de todo o restante da fita, louvando a vontade de não existir diante de um egoísta panorama familiar, que sepulta qualquer ideia de união diante da aproximação da guilhotina, em uma representação real do quanto o instinto de sobrevivência faz demonstrar o real caráter do sujeito ordinário.