Crítica | O Contador de Auschwitz

Em 2019 estreou no Brasil Pastor Claudio, um documentário de Beth Formaggini que trata de um antigo colaborador do regime militar que se tornou religioso e dizia se arrepender do que fez, embora no filme, ele fale de maneira bastante fria dos assassinatos e ocultações de cadáver que participou. O tom do filme brasileiro é diferente de O Contador de Auschwitz, seja pela diferença de formatos, como também pelo seu início, onde uma música alegre mostra imagens da juventude européia durante parte dos anos 1930 e 1940, contudo, não demora a vir à tona o espírito do filme de Matthew Shoycet.

O documentário foca em Oskar Gröning, um contador do campo de extermínio de Auschwitz, na Polônia, e nos esforços de boa parte das vítimas em desmascara-lo, um senhor de mais de 90 anos. Há toda uma discussão ética sobre denunciar ou não um dos responsáveis por um dos maiores genocídios de nossa história, e os argumentos por parte dos responsáveis seria de que nos campos de concentração idade avançada não era impeditivo para que fossem poupados, pelo contrário, eram os primeiros a serem descartados.

O ponto levantado é bastante válido, e seu esforço é mal visto pela maioria da comunidade alemã onde ocorrerá o tal julgamento, mas se tratando da época de lançamento do filme, onde organizações neonazistas tem ganhado força dia a dia, é natural que esse tipo de pensamento ganhe força entre a população, além do fator de condenar um idoso com mais de 90 anos de idade.

Gröning é acusado de ser cúmplice do assassinato de mais de 300 mil pessoas. O formato do filme é bastante tradicional, mostrando os entrevistados em primeiro plano, falando suas idéias sobre o julgamento e repercutindo o circo midiático em volta dele, também revelando o quanto a sociedade se apega a desculpas tradicionais para esconder ou expiar culpa de seus membros.

O contador, assim como pastor Claudio, se aproveitam das falhas jurídicas do Brasil e Alemanha para viver suas vidas de maneira plena, sem restrições e a necessidade de driblar memórias de uma existência miserável do passado, como foi com as vítimas que passaram por eles. A diferença é que ao menos o objeto deste filme não é tão cínico quanto o objeto do filme brasileiro.

O filme se perde ao longo de sua exibição, mas utiliza bons minutos utilizando com exemplos de outros julgamentos onde criminosos de guerra fingiam demência ou doença para não serem culpados, mas mesmo esses momentos de enfado são importantes, pois revelam o quão maquiavélicos continuam os criminosos mesmo com idade avançada.

Uma das senhoras entrevistadas ficou famosa por abraçar e perdoar o genocida, mesmo ao ter certeza que ele esteve como um dos responsáveis no campo onde ela esteve presa com sua família. Este gesto repercutiu como um ato de altruísmo para alguns, e foi até celebrado, mas também encarado por muitos como uma traição e banalização dos crimes praticados contra os judeus e outras minorias.

Ainda que o filme sofra  com graves problemas de concepção, e principalmente  de ritmo, O Contador de Auschwitz é válido por conta da memória dos que sofreram e para evidenciar a informação sobre os crimes de um sujeito que se escondeu atrás do sistema legal de seu país, como também para um lugar como o Brasil, onde a anistia aos crimes praticados pelo Estado durante a Ditadura Militar segue impune até os dias de hoje.

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