[Crítica] O Conto da Princesa Kaguya

O Conto da Princesa Kaguya 1

Concorrente ao Oscar de Melhor Animação, O Conto da Princesa Kaguya é um filme repleto de aquarelas, com cores leves em alto relevo. Se valendo de um conto tradicional, que por sua vez remete aos ritos comuns na nação milenar japonesa, a história mostra uma minúscula criatura em forma de menina, que é encontrada por um chefe de família. Chamada de princesa, toda natureza no entorno se dobra a ela, se condicionando ao seu estado de recém-nascido, como as cortes se dobram ante as necessidades de seus nobres, mas sem o maniqueísmo dos contos ocidentais. A obra não se preocupa em inserir juízo de valor na equação, pela origem e essência humilde de seus personagens adultos.

O rápido crescimento prossegue surpreendendo positivamente seus pais idosos. A infância, uma fase onde descobertas são feitas, é ainda mais reveladora para a Princesa. A história contada é um mergulho aos clássicos orientais, pontuando os comuns aspectos culturais, mesmo com as reviravoltas do roteiro.

O Conto da Princesa Kaguya 3

O intuito dos céus parecia ser outro para a “Pequena Bambu”, longe demais da origem humilde que lhe caia bem, já que seu pai, o cortador de bambu, sempre encontrava ouro e tecidos finos no mesmo lugar onde “encontrou” sua filha. O entender do idoso era de que ela devia ter uma vida de luxo na cidade, distante da aldeia camponesa onde habitava. A sensação é compartilhada pelo infante Sutemaru, que obviamente lamenta a possível perda de sua amiga amada de criancice. A partida ocorre sem delongas, rumo à capital.

Na cidade, os métodos e modos da família transformam-se: os ruralistas viram cosmopolitas, e o luxo logo atinge a feição da Princesa, que logo se mostra empolgada, só diminuindo o entusiasmo diante do arquétipo de sua treinadora, que lhe ensina os modos da nobreza. Um lembrete do roteiro de que a vida precisa de seus limites, mesmo na riqueza.

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O desenrolar lento da história compensa o crescimento acelerado da Princesa, além de fazer menção às diferenças narrativas presentes no modo de contar histórias do Japão, sem pressas e recorrendo pouco ou nada a fórmulas e clichês piegas. A discussão torna-se ainda mais adulta quando a menina discute os meandros do comportamento da classe real, como a negação ao suor, sorrisos e alegrias. A recusa de simplesmente existir é uma bronca interessante que tenta tirar o peso da supervalorização da formalidade.

O amadurecimento da Pequena Bambu mostra-se em detalhes, quando ela é apresentada a um ancião rico, que até acha graciosas suas ações típicas da juventude, mas que se encanta de verdade a partir do momento em que ela segue as regras de sua instrutora Lady Sagami, recebendo então a alcunha de Kaguya, que faz menção ao brilho que ela exala. Ao perceber o que a espera, a Princesa se desespera, correndo rumo ao desconhecido, enfrentando de pés descalços os percalços naturais de pedras, madeiras e vias tortuosas, recusando o chamado de sua desventura, retornando a sua casinha, até vê-la ocupada por outra família.

As marcas de sua infância se perdem. Perceber que tudo mudou é péssima para a nova Kaguya. O ciclo da personagem naquele lugar se fechou, como os ciclos naturais da montanha. Como se tivesse acordado de um sonho, Kaguya se levanta e aceita a sina de se enjaular como o pobre passarinho ao seu lado, deixando-o livre para voar, invejando a liberdade da pequena ave.

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A corrida dos nobres pretendentes em busca da possibilidade de casar com a mulher de fama lendária surge trazendo ainda mais confusão ao pensamento familiar, mas não à infante, que sabe bem que não conseguirá desejar um companheiro sem conhecê-lo. Munida da autoridade, dada a ela somente por sua fama, a pretendida pede prêmios, difíceis de encontrar, para cada um dos homens que se aproximam, para afastar o agouro de ter que decidir seus rumos e futuro.

Após encontrar seu antigo amigo Futemaru, a Princesa começa a, enfim, ter paz de novo, mesmo vendo o rapaz passando por uma péssima fortuna. Ter noção de que ele estava vivo era um alívio, mas tal condição cairia por terra com o presente que o Príncipe lhe enviou. Sendo o único que respondeu à prenda que lhe foi imposta, o personagem passa por cima do orgulho próprio somente para ver a aura de Kaguya. O altruísmo logo é desbaratado, em mais uma mostra de enorme maturidade do roteiro.

A moça finalmente toma coragem para enfim recusar os incômodos que se aproximam, tomando para si a virtude de ser a mais adulta da casa, a única capaz de refutar a hipocrisia do casório armado. A raiva pela necessidade de ser obrigada a pertencer a alguém revela a verdadeira origem e natureza da Princesa, que se faz mulher para perceber todas as agruras da vida enquanto ser feminino.

Após dez anos, a Pequena Bambu retorna às montanhas para se entregar aos seres originários, não sem antes se encontrar com seu amigo Sutemaru, uma década modificado, mas ainda repleto de orgulho e vontade de lutar pelos seus. Kaguya, ou Pequena Bambu, finalmente tem sua jornada concluída, findada como um sopro, um sonho, um breve instante de brilho na existência dos terrenos, presentes em poucos momentos por ser este um mundo indigno de sua permanência. Mesmo com sua superioridade comprovada, a menina não queria se livrar das lembranças terrenas, nem dos defeitos e virtudes da mortalidade, ainda que o aspecto divino fosse inexorável. Ao final, O Conto da Princesa Kaguya é uma ode à mensagem positiva presente no budismo, repleta da sabedoria típica do milenar pensamento oriental.