[Crítica] O Destemido Senhor da Guerra

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Invertendo qualquer expectativa torpe, ao tentar ligar a filmografia de Clint Eastwood ao dito “esforço de guerra” ou ao incentivo a belicidade, O Destemido Senhor da Guerra já expõe seu caráter de troça ao conflito na sua introdução, mostrando imagens de arquivo, em preto e branco, acompanhado da trilha de uma bandinha militar, que rufa tambores ao menor sinal de tiro, disparo de bombas e da movimentação dos camuflados nos descampados. Tudo para, mais à frente, mudar sua música para um ritmo tipicamente regional, composto por Lennie Niehaus, que faz lembrar a simplicidade e origem da maioria dos alistados.

O texto de James Carabatsos compreende uma situação limite, em que o personagem de Clint, Sargento Tom Highway, sai da detenção por conta de seu gênio forte. Já em seu primeiro contato com outros seres humanos, ele demonstra seu anacronismo, chamando qualquer arruaceiro de hippie, o que demonstra o quanto acha o estilo de vida pejorativo, além de revelar um claro problema em lidar com pessoas de outras gerações e background.

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O retorno às origens faz Highway confrontar não só seu passado, como também causa conflitos básicos com seu novo pelotão, um grupo de recrutas indisciplinados, que terão de “entrar na linha” rapidamente ao comando de seu novo mentor. A experiência do veterano no Vietnã deveria credenciá-lo para treinar tais moços e realizar resgates em Granada, não fossem estas pessoas sem a menor vocação, e não fosse claro pelo passado amoroso dele com Aggie (Marsha Mason), que faz desconcertar não a si, mas o seu antigo matrimônio.

A direção de Eastwood favorece o comentário crítico a respeito da militarização de seu país, exibindo seres despreparados para o combate em quase todos os níveis hierárquicos das forças armadas. O principal fator de discussão é a falsa impressão de vocação quase inevitável dos Estados Unidos para qualquer conflito beligerante, como se tal aspecto fosse natural, e não forçado pelas autoridades e claro pelo empresariado, sob o pretexto de que a guerra impulsiona o desenvolvimento tecnológico e (supostamente) o instinto de nobreza de um povo, exibindo o conflito como objeto de sátira e deboche, semelhante ao realizado no recente Sniper Americano.

A trajetória de Highway envolve uma derrocada primária, seguida de uma superação, tanto em sua vida pessoal, como na subida de carreira, reunindo em si uma nova faceta, repleta de carisma, ao contrário do estereótipo primariamente visto em O Destemido Senhor da Guerra. O subtexto com viés de contestação está em uma camada não superficial, mas ainda assim bastante aquém em comparação com todo o conteúdo de diversão da fita.