Crítica | O Dia Depois

Sabe quando você acorda numa manhã de feriado, achando que está com as próximas horas planejadas e encontros e desencontros pipocam do acaso, e preenchem o caminho antes pavimentado? Parece até a sinopse bem vaga, por sinal, de Encontros e Desencontros, o ótimo filme de Sofia Coppola onde personagens são usados como paisagens a zanzar e se entrelaçarem, por ai – ou melhor, nas dependências de um hotel bem mais familiar e civilizado que o de Stephen King, e Jack Nicholson. Por sinal, Sang-soo Hong teria o olhar perfeito para a releitura do filme de Coppola caso este precisasse de uma releitura. Fato é que Carl Dreyer, aquele dinamarquês genial, ficaria orgulhoso em ver grandes histórias ainda nos anos 2000 magistralmente decantadas, assim, sobre as relações que tornam o ser, humano, sobrando apenas a sua essência gigante na tela, conjecturando nisso o lado fascinante das relações entre dois (ou mais) seres. Apenas o que realmente importa à excelência da comunicação.

O Dia Depois tem muito a ver, beneficamente, com os dois filmes anteriores do cineasta, A Câmera de Claire e muito mais ainda com o belo Na Praia à Noite Sozinha, ambos de 2017 – sendo o último queridinho especial da crítica especializada brasileira. Por isso mesmo, O Dia Depois, o mais belo trabalho recente do diretor japonês passou meio que despercebido do circuito e comentários do público; mesmo aquele que busca algo fora da bolha Marvel/Star Wars/Alguma outra franquia reciclada pela enésima vez. Incrível como em nenhum desses blockbusters nota-se algo tão simples e mais encantador que qualquer efeito especial ou trilha retumbante: Personagens, gente da gente, dando profundidade ao meio onde habitam à altura dos nossos olhos. Por que nenhum efeito multibilionário consegue reproduzir este efeito tão barato, e tão caro a nossa percepção, é a pergunta que aqui eu não consigo responder. Vai além de mim, e de certo além de alguém deslocado em absoluto das próprias prioridades emocionais.

Kim Bongwan não sabe o que fazer da sua vid(inh)a. Perdido, trai a esposa e acha uma incomunicabilidade Antoniana com a esposa e a amante, cujo laço profissional é forte. Começa a ser cobrado do outro lado da mesa, (essa, aliás, a primeira cena do filme) e simplesmente não sabe o que manifestar de si para sua colega conjugal. O impasse então contemporâneo, mas não apenas presente nos dias correntes, vai de encontro e se enraíza no próprio jogo que Sang-Soo Hong proporciona com a câmera: Ao filmar seus manequins, filma com a leveza do vento os seus interiores, um efeito mais que difícil contudo ambicionado por 11 em cada 10 cineastas, chegando a conectar de uma forma cinematográfica (entenda como quiser) o interior dos lugares, com o âmago hiper exposto de suas personas tão urbanas, quanta desamparadas. Para Hong, um dos melhores sul-coreanos em atividade, diferente de Fincher, a câmera é um binóculo, sendo que para o segundo torna-se um microscópio voltado ao oculto e ao tendencioso que faz parte e se esconde nas engrenagens furtivas dum cotidiano urbano, ou não.

Filmado em preto e branco e banhado na cumplicidade que vem, e que brota das situações que englobam a trama, é complicado tecer algum descaso anacrônico na projeção sobretudo ao aspecto fantasmagórico do que preenche o nosso olhar. Chegamos então ao ponto principal, aqui: O olhar. Caso, de fato, as melhores coisas da vida demandem uma certa visão justificada a repousar sobre alguma delas, Hong não impõe sua dramaturgia, mas a extrai do que imagina, organiza e conjura enquanto grande cineasta. Não expõe o contraponto entre a amante delicada, e a esposa agressiva nas conversas com Bongwan: O extrai, por exemplo. Tudo é naturalizado em seu Cinema, e esse método humilde e singelo de esforços culminando, novamente, na leveza de uma brisa que sabe onde quer chegar, isso não poderia ser melhor retratado do que em O Dia Depois, tomando como referência o título do que vem a suceder das escolhas do marido infiel sobre os arranjos organizacionais da poética, da lógica da sua própria vida ligada aos seus encontros.

Arquitetando o tal ‘olhar sobre o cotidiano’ puro, e simples que emula de maneira atualmente rara, e particular, Hong também usa da nossa imaginação delirante enquanto espectadores para nos enganar na exposição de uma dimensão paralela à nossa. Tão imprevisível, por vezes banal e parecida com a do lado de cá, que chega a ser desafiador no término da sessão empunhar a certeza, tal a confusa Alice de Dickens, de que acabamos de assistir a um filme, ou a gravações de um atento voyeur harmonizadas a tal ponto que se transmutaram, ao pé da nossa observação caolha e incompleta como sempre, numa composição realista de excelentes qualidades fílmicas.

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