Cinema

[Crítica] O Dia que Durou 21 Anos

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O Dia que Durou 21 Anos

Atualmente o tema da ditadura civil-militar brasileira está sendo explorado por meios como cinema, especialmente em documentários, para se contar sobre este período sombrio da nossa história, em especial por causa das investigações da Comissão da Verdade, remexendo ainda em feridas que doem em muita gente, e também em interesses de quem que preferiria deixar esse passado para sempre quieto e intocado.

Em meio a tudo isso, o cineasta Camilo Tavares decidiu contar a história de seu pai, o jornalista Flávio Tavares, que foi preso pelo regime e, posteriormente, trocado pelo embaixador americano Charles Elbrick, em 1969. Porém, ao se deparar com uma vasta documentação liberada por arquivos nos EUA, Tavares muda o foco de seu filme para a participação dos EUA no preparo e efetivação do golpe de 1964.

Começando com a renúncia de Jânio Quadros em 1961, o filme mostra como os EUA já participavam da política brasileira, porém, sem ainda a devida organização necessária para efetivar um golpe e impedir a posse do então vice João Goulart, também defendida por Leonel Brizola e sua rede da legalidade. Jango aceita a imposição do parlamentarismo, mas logo o país retorna ao presidencialismo e, com um discurso considerado radical de esquerda no auge da guerra fria, Jango assusta os setores mais conservadores do país e dos EUA, com medo de que uma nova China (por causa das dimensões continentais do Brasil) acontecesse.

Um dos aspectos mais interessantes do filme é tirar do bom moço John Kennedy a imagem de democrata-quase-santo, pois é ele quem inicia os planos de remoção de Jango do poder, considerando inclinação do presidente em não se subordinar aos interesses americanos. Vários arquivos em áudio registram esse fato, com falas fortes de Kennedy “pedindo a cabeça” de Jango e dando o aval ao embaixador americano no Brasil, Lincoln Gordon, para continuar com os planos conspiratórios, o que o vice-presidente Lyndon Johnson  mantém após o assassinato de Kennedy.

Através da CIA e de organizações de fachada, como o IBAD (Instituto Brasileiro de Ação Democrática) e o IPES (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais), os EUA jorraram dinheiro dentro da política nacional, patrocinando políticos e veículos de imprensa contrários a Jango em uma enorme campanha de difamação, associando-o ao comunismo internacional, para criar um clima de medo na população. Tal tática também seria usada com sucesso para desestabilizar o governo de Salvador Allende, no Chile. Também fartamente documentada e mostrada no filme está a operação “Brother Sam”, na qual os EUA enviaram ajuda militar com navio de guerra, arma e munição para ajudar os golpistas no caso de uma resistência armada.

Dessa forma, se mostra impossível negar a participação dos EUA no golpe brasileiro, o que já era consenso dentre os historiadores. Mas o que não havia sido divulgado até então era a extensão da influência americana na política brasileira, a ponto de o primeiro presidente militar, Castelo Branco, ter sido praticamente escolhido pelos norte-americanos por sua postura fiel aos “valores democráticos dos EUA”.

Como retrato histórico o documentário é extremamente importante para desvendar e aprofundar esse período da história do Brasil. Porém, o lado negativo são algumas escolhas estéticas de Camilo Tavares, em especial no uso de trilhas sonoras desconexas com os momentos exibidos na tela. As montagens de Kennedy assistindo discursos de Jango também são de um didatismo exagerado, pois já sabemos daquelas informações. Com pouco tempo de duração (apenas 77 minutos), faltou também ao documentário encerrar melhor o filme, que acaba de forma abrupta, sem desenvolver muito bem a parte final, após a posse de Castelo Branco, a ascensão de Costa e Silva e o AI-5.

Porém, mesmo esses problemas não tornam o filme menos importante. Suas informações são essenciais mesmo para os especialistas da área, devido às novidades trazidas por ele, graças ao acesso às fontes primárias, o que garante um frescor na análise histórica. Para os leigos, fica o impacto de até onde os EUA foram para manter seus interesses no Brasil, removendo do poder presidentes democraticamente eleitos em nome da democracia, mostrando sinais claros de que a tal democracia norte-americana já então sinalizava que o único modelo aceito era aquele que eles permitissem.

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Texto de autoria de Fábio Z. Candioto.

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