Crítica | O Exorcista – Versão do Diretor

A versão estendida capitaneada pelo diretor William Friedkin para o clássico O Exorcista começa no cenário desértico e arenoso de Hatra, próxima de Nínive – atualmente fica no Iraque -, onde o padre interpretado por Max Van Sydow, Lankester Mirren, participa das escavações arqueológicas que serviriam de base para os dois prequels da franquia. Ali, o religioso se depararia com uma imagem e a história de rivalidade com a entidade da qual confrontaria mais tarde.

Enquanto isso, acompanhamos a rotina em Georgetown, onde se bifurca a história, mostrando a atriz Chris MacNeil (Ellen Burstyn), trabalhando em um filme e vivendo sua rotina com a filha Megan (Linda Blair), além disso, somos apresentados ao jovem padre Damien Karras (Jason Miller), um rapaz abnegado, que cuida da avó já bastante idosa e que parece ter pouco tempo para satisfazer seus próprios desejos. Antes mesmo de qualquer manifestação do mal, já se percebe a angústia da vida moderna acometendo os personagens, como se suas satisfações mais básicas não tivessem como ser atendidas minimamente. Só a criança resta usufruir de pequenos prazeres, os adultos são quase castrados.

Aos poucos o drama de Megan evolui. As primeiras manifestações do mal que assola a menina são tímidas, com ela indo até uma reunião social em sua casa e urinando na frente de todos, mais tarde sua cama balança sem motivo para tal. Sua atitude muda muito, sua voz fica gutural e ela começa a se debater, com o volume de seu pescoço aumentando muito, como se houvesse algo preenchendo sua garganta. O ser que divide a consciência com ela declara que a alma da criança pertence a si, e não demora até a mãe da possuída perceber que o acompanhamento médico, psiquiátrico e exotérico não surtirá o efeito desejado.

O autor do livro, William Peter Blatty, teve um papel importante na produção, servindo não só de consultor, mas também de roteirista. Muito do ritmo mais lento do longa é relegado ao seu texto, que prioriza a construção do suspense por meio da problemática de permanência da entidade maligna no corpo da menina. Apesar de haver claramente uma gordura nesses momentos, extensos demais, a letargia do texto é bem empregada, para muito além do enfado do público atual que porventura assista essa versão. A demora para que hajam ações mais diretias, seja da criatura ou de quem a trata serve de paralelo ao velho conflito maniqueísta entre bem e mal e a impotência humana diante das divindades de deus e o diabo. A demora ataca a segurança dos MacNeil e de Karras, sendo o padre por sua vez um pouco negligente, já que demora a perceber que realmente precisa de ajuda.

Há cenas específicas de força simbólica ímpar, antes mesmo da chegada de Mirren. A cena do crucifixo serve não só para mostrar a zombaria do diabo com um objeto sacro, como também o despertar da sexualidade da moça, com o óbvio paralelo com a menstruação. Alem disso, o momento em que Sharon (Kitty Winn), a assistente de Chris corre para encontrar Karras na entrada da casa é o símbolo mais cabal da pressa e da ansiedade dos personagens por ter toda aquela situação resolvida.

O exorcismo de fato ocorre após longas e demoradas sessões, que incutem no espectador o medo por meio da já citada lentidão do tratamento. Não há respostas fáceis para o que ocorreu com os MacNeil, nem para as manifestações de frio dentro do quarto onde todo o trauma ocorreu. A menina, que antes tinha em si a figura do demônio se livra do flagelo que é imposto pelo mal, sem lembranças do que ocorreu, sem perceber inclusive os sacrifícios dos sacerdotes que serviram a si.

O Exorcista é um filme artístico e com a marca de seu realizador, contém suspense, gore, pitadas de exploração da fé comum a grande parte do Ocidente. Muitas vezes é injustiçado de não ser colocado no mesmo hall de O Bebe de Rosemary de Roman Polanski e O Iluminado de Stanley Kubrick, muito por ser esse parte de um cinema de gênero normalmente relegado a algo menor. Seus dotes como a música característica e amedrontadora de Mike Oldfield e Jack Nitzsche, ou a construção de horror que a direção de arte e elementos da fotografia proporcionam nos 132 minutos de exibição são só alguns dos elementos que fazem o longa soar como uma obra prima não só do terror, mas do cinema clássico como um todo.

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