Crítica | O Favorito

Novo longa de Jason Reitman, agora focando em uma história biográfica e política, O Favorito fala a respeito do político Gary Hart (Hugh Jackman), um democrata que chegou a disputar a corrida presidencial, e sofreu um revés estranho, perdendo mesmo estando à frente de quase todas as pesquisas e isso se deu por uma razão peculiar e inesperada em face da vida pública dos Estados Unidos.

A trama começa durante as primárias do Partido Democrata, em 1980. Ele, casado com  Lee (Vera Farmiga), perde e isso o marca profundamente. Algum tempo depois ele acaba conseguindo ser o escolhido do partido e as administrações anteriores favorecem sua campanha, largando bastante na frente. O filme é dividido de forma capitular, em uma contagem regressiva semanal até o dia do pleito majoritário.

O clima de vitória certa fortalece a parte cômica do roteiro de Reitman, Matt Bai e Jay Carson, o fato de haver poucas ou nenhuma preocupação torna todo o astral que poderia ser estressante em um verdadeiro mar de rosas e a trama faz questão de tornar Hart uma figura simpática e preocupado com os menos favorecidos, bem ao estilo JFK, tanto em suas virtudes quanto em seus defeitos.

As caracterizações do filme buscam ser fidedignas, como foi com The Post: Guerra Secreta de Steven Spielberg e Spotlight: Segredos Revelados de Adam McKay. O roteiro segue dando indícios de que aquele paraíso é construído sob uma base frágil, com pequenos elementos que desconstroem a perfeição de Paladino que Hart ostenta. A proximidade com a imprensa faz com que assuntos tabus sejam timidamente levantados, como por exemplo, porque ele não se divorcia mesmo, claramente, não tendo uma vida íntima com sua esposa. Além disso, ocorrem ligações anônimas para a imprensa, inicialmente ignoradas pelo Washington Post, mas que ganham força ao chegar no Miami Herald, um tabloide conhecido pela sua fama sensacionalista.

A partir daí começa uma trama diferenciada em formato thriller, com perseguição do jornal menor ao político, interrogatórios com a pessoa que teria se relacionado com o político, e outros tantos eventos sensacionalistas. A câmera de Reitman basicamente está lá para registrar os acontecimentos, mas sem julgamentos. O que mais se aproxima disso, é uma discussão na redação, onde os jornalistas falam que os desvios sexuais de Lyndon B. Johnson e John F. Kennedy eram tolerados e acobertados pela maioria das pessoas em nome de uma boa convivência. Quem determina se isso é algo relevante ou não, segundo um dos editores é o leitor e isso é um sinal dos tempos, ao menos é o que se alega, mesmo que não haja nesse momento como o povo saber de qualquer fato que não seja via imprensa.

A grande questão do filme de Reitman é que ele não se arrisca. A abordagem de um evento tão complexo é feito de um modo demasiado careta e sem sal. A trajetória de Gary Hart desperta curiosidade, assim como o desempenho de Jackman é bastante interessante, mas a falta de um posicionamento mais contundente e a isenção política do texto final pesam contra os dois aspectos positivos citados, tornando desimportante a jornada e todo o desenrolar dos fatos, o que é lastimável pois a condução inicial do cineasta parecia no começo levar para outra direção.

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