Crítica | O Fotógrafo de Mauthasen

Filme espanhol de Mar Targarona, O Fotógrafo de Mauthasen mostra uma face curiosa e proveniente da segunda guerra mundial. O letreiro que aparece antes do drama localiza o infortúnio de fugitivos espanhóis que estiveram com os franceses lutando contra as tropas de Adolf Hitler. 7000 pessoas passaram pelos muros de Mauthausen, mas foram capturados por soldados nazistas, e ao ter seus direitos discutidos, receberam como “prêmio” do ministro Serrano Suner a negação de sua pátria, sendo considerados por ele e pelo governo franquista como não-espanhóis, desumanizados e despatriados.

O filme se mostra inteligente, e brinca com a expectativa de que o narrador seja uma das crianças acompanhadas pela câmera, quebrando a quarta parede afirmando ser o fotografo que dá nome ao filme. No entanto, o maior acerto do filme do ponto de vista intelectual é focar no quanto os soldados e adeptos do III Reich eram intolerantes, e não só os governantes da política de extrema direita. O povo apoiava as barbaridades feitas contra os judeus e toda a sorte de preconceitos provenientes delas.

Há outro aspecto bem curioso, que é o papel dos chamados kapos, prisioneiros judeus que agem como carcereiros, mas que também são explorados. O fato de terem porretes os tornam mais poderosos que os demais, frequentemente humilhados, espancados e mortos todos os dias nos campos de concentração. É neste momento que o fato do filme ser expositivo funciona positivamente, pois os kapos fazem um forte paralelo com os pobres que defendem ideias extremistas que lhe farão mal, ou sem perceber que atacam os seus.

Apesar da exposição se tornar bastante pesada em muitos pontos, o maniqueísmo é um cabível, pois o ideal do filme é mostrar o sofrimento dos perseguidos. O filme gasta um tempo enorme mostrando o dia-a-dia dos campos e a completa desumanidade dos soldados e oficiais nazistas, e ainda demonstra de maneira categórica que não há qualquer intenção igualitária entre os chefes nazistas e os kapos, mostrando que eles só servem para ser um golpe ainda mais forte e sentimental nos prisioneiros, pois a violência do nazista para o judeu é esperada, mas a agressividade entre irmãos, não.

Há um momento bastante tenso que mostra um número teatral imitando uma procissão e depois encenando um enforcamento, que acaba de fato matando o tal “condenado”. Bizarramente, fica a dúvida sobre a situação, se foi proposital ou não a morte do sujeito, pois para os nazistas, vidas hebraicas valiam menos que outras vidas. O final de O Fotógrafo de Mauthausen é catártico, e dá vazão a um sentimento de vingança e justiçamento, justificado dentro da lógica moral do filme. Apesar de não ser um filme perfeito, ele acerta mais do que erra, especialmente nas denúncias sobre a hipocrisia geral da sociedade à época.

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