[Crítica] O Futebol

O Futebol

Vencedor do festival É Tudo Verdade, O Futebol mostra seu co-realizador Sergio Oksman e seu pai Simão tendo um reencontro após mais de duas décadas. O plano do cineasta, ao lado de seu parceiro Carlos Muguiro, é retornar a sua cidade natal, São Paulo, para passar todos os dias do torneio mundial sediado no país em 2014 ao lado da figura paterna, a qual se manteve ausente por longos anos. Os primeiros contatos dos dois são preenchidos por um silêncio constrangedor agravado pela ausência de trilha sonora.

O contato de Simão com a câmera é quase sempre hostil, já que o ancião não parece ter qualquer familiaridade com o principal objeto de trabalho do seu herdeiro. A lente basicamente fica a poucos metros de distância do sujeito. Durantes os jogos, os momentos escolhidos pela edição são normalmente os que o senhor não olha para a televisão, com sua atenção voltada para o nada, como se pensasse no vazio em que esteve nos últimos anos, distante de seu parente.

Não parece haver realmente qualquer contato anterior entre as partes, visto que até um divórcio por parte de Sergio não era conhecido de seu pai. Mesmo assim, o diretor consegue achar semelhanças entre a sua vida privada e a de seu pai, como o fato de ambos terem se hospedado em hotéis após suas respectivas separações conjugais.

O documentário registra o ócio e a distância sentimental entre pai e filho, de um modo cuidadoso. O espaço entre os corpos, provocado pela falta de intimidade entre herdeiro e progenitor, é apenas uma visão superficial do que ocorre internamente entre as figuras de análise. O período de reencontro é interrompido por uma questão adversa, e a falta recente curiosamente casa com a eliminação brasileira no torneio, mas que não é sentida pelo filho, o qual está claramente ocupado em outra ressaca, em cenas carregadas de simbolismo, mostrando como pode ser desventuroso viver.

O Futebol, tanto o nome do filme quanto o esporte em si, é basicamente um pretexto, um artifício utilizado para tentar alcançar a emoção do reencontro. O espírito e caráter da obra se assemelham muito a Homem Comum, de Carlos Nader, ainda que a digestão deste seja dada exclusivamente ao público, sem artifícios de pré-julgamento estabelecidos pelos diretores, o que torna a experiência da fita ainda mais rica e universal.