Crítica | O Gênio e o Louco

O Gênio e o Louco é um longa adaptado para o cinema a partir do livro O Professor e o Louco, de Simon Winchester (além de autor do livro, ele co-assina o roteiro). Estória real que relata o cruzamento das vidas de dois homens no final do século XIX, o prof. James Murray (Mel Gibson) e o Dr. William Chester Minor (Sean Penn).

Os dois entram em contato no processo de elaboração do New English Dictionary on Historical Principles, conhecido atualmente como The Oxford English Dictionary (dicionário Oxford da língua inglesa). O escocês autodidata sem formação superior, James Murray, é um self-made man dedicado ao estudo das línguas. Ele propõe ao corpo diretor da Sociedade Filológica da Língua Inglesa ligada à universidade de Oxford que lhe conceda a liderança do projeto audacioso de elaboração do dicionário. A esse objetivo ele dedicaria sua vida a partir dali. No seu tortuoso, desafiador e sofrido caminho, conheceria o doutor Minor.

O filme, embora nos entregue uma estória real muito interessante e cativante, tem pontos negativos que comprometem sua qualidade. O enredo que o longa retrata cobre o período que vai de 1871 até 1910, praticamente 40 anos, e o roteiro deveria, assim, apresentar de maneira adequada essa passagem de tempo. A impressão que se tem ao assisti-lo é que toda sequência de acontecimentos ocorre em não muito mais que dois anos. Ponto negativo para os roteiristas John Boorman (O General), Todd Komarnicki (Sully: O Herói do Rio Hudson), Farhad Safinia (Apocalypto) e Simon Winchester (relevante jornalista e escritor – dentre muitos outros, O Homem que Amava a China é seu livro de destaque publicado no Brasil).

Safinia, além de co-assinar o roteiro, dirigiu filme. Isso poderia tê-lo levado a uma percepção diferente sobre a apresentação da estória e ter propiciado correções, que elevariam a qualidade do filme. Sobre a atuação dele como diretor há uma questão engraçada, Gibson (detentor original dos direitos para cinema do livro de Winchester) dividiria a direção com ele. Desistiu de fazê-lo e teve dificuldades financeiras que o levaram a vender os direitos a outra produtora. Os novos donos se desentenderam sobre detalhes da obra com Safinia, o que redundou na impossibilidade de que esse assinasse diretamente a direção do longa. Oficialmente o diretor é P.B. Sherman, pseudônimo que Farhad teve de criar para os créditos.

Apesar dessa questão negativa do tratamento do tempo na obra (central para a qualidade dela), assistir ao filme não é nenhum esforço. A atuação de Penn (Sobre Meninos e Lobos) é sensacional. Ele nos apresenta um Dr. Minor mais que convincente como combatente, nos poucos flashs de memória que tem da Guerra Civil Americana; um homem de meia idade verdadeiramente insano e profundamente intelectualmente compenetrado e produtivo ao ponto de contribuir com mais de 10.000 citações para o dicionário.

O prof. Murray que Gibson (Coração Valente) nos faz conhecer é a perfeita imagem de um homem auto-forjado a partir das dificuldades. Sua interpretação de convicção, entusiasmo e autoconfiança na cena inicial com a diretoria da sociedade filológica não poderia ter retoques. Ao mesmo tempo, os diversos momentos de vacilação de Murray apenas talvez tenham alcançado expressão mais fidedigna no rosto do James real.

Natalie Dormer (Game of Thrones) está simplesmente de fazer chorar no papel de Eliza Merrett, viúva de George Merrett, assassinado pelo Dr. Minor. Em toda sua desgraça e limitações, em toda sua dor, desespero e confusão, em sua insana paixão por William, a Eliza de Dormer nos faz experimentar um pouco do que essa infeliz deve ter passado em sua vida.

Se o filme não é uma obra prima, faz valer as pouco mais de duas horas investidas em frente à tela. Adicionalmente ao já apresentado, é uma delícia visualizar a vida na Oxford de finais do século XIX e início do XX. Permita-se ser levado pela confluência de sentimentos. Ouça a música-tema original do filme The professor and the madman de Bear McCreary (Godzilla II: Rei dos Monstros) de olhos fechados e inicie o filme assim que o som encerrar. Esteja pronto para se perguntar o que é loucura e o que é genialidade.

Texto de autoria de Marcos Pena Júnior (marcospenajr.com).

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