Crítica | O Grande Mestre

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Filmes de luta são bacanas. Para muitos, irresistíveis, à beira da inspiração de se matricular na escolinha de caratê perto de casa para quebrar o cotovelo no primeiro golpe decente ou queda latente. Não é fácil ser Bruce Lee; mais árdua ainda é a tarefa  de seu próprio tutor. Um universo atraente, cujas habilidades podem ser a maior maldição imposta a um ser em constante luta— literalmente ou não  para se manter humano, rumo à sobrevivência impossível de se alcançar, uma plenitude linear de uma existência tão imprevisível. O Grande Mestre, mistura de O Tigre e o Dragão e Kill Bill junto a um charmoso clima noir, não debate, mas escancara as portas da trajetória de um fantasma social — verdadeiro nômade que precisa provar seu valor a quem não ousa duvidar dele e, mesmo assim, busca o desequilíbrio do próximo para alcançar a tal plenitude pessoal. Focando esta analogia urbana, visto que nas cidades é essencial ser 100% competente o tempo todo, fica fácil — até demais — captar as intenções por trás do escopo da projeção, certeiro feito os socos e pontapés coreografados em belas danças regidas pela lendária coreógrafa de lutas Yuen Woo-ping. Odes à brutalidade humana, revestida aqui da mais bela poesia irônica entre dor e antídoto, os quais são mascarados por ritmo, planos cênicos sobrenaturais de absoluta beleza, além de sonoplastia magnífica.

Mas a piscina é rasa, e quem quer dar um mergulho fica com metade da cabeça sem se molhar. Isso se deve à nova tendência dos filmes de ação que não justificam todo o seu apreço publicitário, que é, hoje em dia, apostar num drama no estilo “novelão mexicano”, reduzido ainda mais ao que se deve expandir, e que efeito especial algum substitui. Não que um ótimo cuidado na dramaturgia não combine com o oposto, afinal ambos se atraem, seja na arte, seja na vida. Contudo, O Grande Mestre e seu diretor Wong Kar-wai são frutos imediatos deste novo galho experimental, que ainda tem muito a se ramificar, mas que já dá sinais de que não deve ir muito longe.

Caso o espectador já tenha dado uma espiada prévia nos grandes filmes de ação de Seijun Suzuki e Akira Kurosawa, duas lendas do cinema asiático, sabe que há razões para duvidar deste falso épico que transborda efeitos de câmera lenta, filtros de captura de imagem e diegética exagerada mesmo para espetáculos faraônicos deste calibre. Saber contar uma história em meio à ação é um dom muito respeitável. Vários são os elementos bem coordenados por Wong para orquestrar a produção, porém são emissores e derivados de um audiovisual oco e de um gosto de “quero mais” desagradável, que pode ser saciado pelo recente 13 Assassinos, de Takashi Miike, um Épico japonês da gema, com o devido É maiúsculo junto a tudo de bom que a tecnologia oferece atualmente.

É curioso e muito mais do que isso: triste constatar a conduta dos cineastas não americanos em aceitar a “americanização”. Um palavrão feio e de consequências horríveis, como é o caso do filme de Wong, uma controvérsia nada acidental de um produto oriental que teima ser ocidental, e que perde sua identidade ao tentar se adaptar a outro DNA. Tal influência não remete ou faz bem à essência do material, que vende a alma, na vontade de reconhecimento, através da identificação com a forma frenética de se fazer o cinema típico dos Estados Unidos e do Reino Unido. Então, sem comparações e por efeito de causa, apenas: será possível imaginar um filme de Mizoguchi com uma edição ao estilo de Hitchcock? Depois de três conhaques e uma sessão dupla de O Grande Mestre, eu não duvido. É melhor nem tentar…

Pois por tentar fazer o Yojimbo do século XXI, restou a vontade; ao tentar refilmar O Tigre e o Dragão, sobrou a ambição; de captar a genialidade de obras como A Vida de um Tatuado, ficou o ímpeto de uma criança perdida num tatame de caratê pela primeira vez, sem saber direito o que socar nem o porquê, pois cresceu vendo, por meio da televisão, filmes de luta, querendo brincar da mesma maneira. É preocupante que a crença sobre um visual arrebatador se torne motivo suficiente para um filme arrebatador, e que esta preocupação não seja mais uma exclusividade restrita à cegueira cultural promovida à exaustão por Hollywood: ela começa a se propagar, oficialmente, com O Grande Mestre, do outro lado do hemisfério. O fim está próximo ou o solstício de certas práticas centenárias apenas avança ao epitáfio em prol da soberania dos cadetes da tecnologia?