Crítica | O Lamento

Se você é daqueles (as) que acha que o que se vive no inferno é o terror absoluto, talvez você tenha essa opinião reforçada assistindo O Lamento. O terror hoje em dia é vulgarizado, é coisa de moleque num lamaçal de sangue e gritos sem sentido em mil filmes, por anos; filmes com qualidade inferior que inúmeros vídeos aterrorizantes do Youtube. Quem ainda não checou o novo filme de Hong-Jin Na, e afirma inocentemente na web que A Bruxa é o “terror de 2016”, tornando imediato tudo e dando veredictos rápidos típicos do péssimo período crítico de Cinema atual, recomenda-se assisti-lo de dia, com alguém e de terço à mão, tenha você religião ou não. Ao empoderar o danoso, o filme testa a potência do sobrenatural e o poder impiedoso das coisas malignas neste mundo de carne, e fé.

Celebrando o poder da encenação e a fruição dos arrepios por cima da pele, vamos entrando de cabeça na jornada satânica do policial Jong-Goo, pai de família que começa a investigar uma estranha epidemia na vila onde mora – muito antes de podermos comparar, por meio de simbologias, inúmeros jogos com a nossa capacidade de prestar atenção na tela, a jornada de fé sobre-humana de Jong com a mesma trilhada pelo padre Damien, em O Exorcista, clássico aliás que este novo (provável) marco bebe da essência sem tomá-la como plágio ou apologia em nenhum momento. Como não se envolver com o psico horror derivado do drama que resulta na perda da fé na família, na polícia, neste mundo, na perda da fé em si mesmo? Pergunta mais do que retórica.

Se O Exorcista nos poupa de extremos pela época que foi feito, O Lamento nos poupa menos, e só nos poupa para não incorporar de vez o lado gore, uma violência explícita que poderia enfraquecer a obra, ou seja, retirar parte da intensidade que sentimos aumentar a cada novo fio duma teia de dramaticidade horripilante. Por essas e por outras, o filme é uma mistura visceral de Noite do Demônio (1978) com Memórias de um Assassino (2001), num tour de force coreano sadomasoquista (quase) ao extremo, como já foi dito, lavando a alma dos fãs de vários gêneros e do bom e velho Cinema, do tipo que não tem medo de jogar luz nos monstros embaixo das camas. A medida que o caos, o lado escuro da força, o inexplicável corrói o cotidiano de cidadãos 100% comuns, começamos a ter uma pena sincera dos personagens; pobres decaídos de um xadrez ardiloso, demais. Sendo assim, Zé do Caixão ficaria orgulhoso…

Nos envolvemos a ponto de sentir sua angústia, sua impotência e fatalidades! Se eles chegarem vivos até o final, rebeldes contra o oculto (não tão invisível assim, como constatamos mais afrente), então nosso mundo pode vencer as antíteses do divino, o que é quase impossível se não houver fé… Fato é que não é mole assistir O Lamento, mesmo com crucifixo (faça-me esse favor); vale colocar a mão à frente dos olhos, às vezes. Não precisa ter vergonha, e às vezes é necessário: Cenas magistralmente dirigidas e editadas, como a do ritual pesado de vodu, além de coagidas por um elenco à prova de bala (a jovem Kwak Do-Won impressiona) fazem os nervos de qualquer um dançar um frevo! Cuidado.

E do que é feita uma história dessas, afinal? Por muito daquilo que torna célebre inúmeros outros exemplares do gênero: A chuva. O suspiro. A fumaça que sai da boca, a lama e o fogo na escuridão, e sobretudo a certeza de brincar com as nossas noções bobas de céu, e trevas. O Lamento vai fundo e recicla, além de ter a marra de recriar muitos arquétipos infalíveis para nos transportar para o purgatório, aos sete círculos do inferno, numa dança macabra de arranjos delirantes. Em dados momentos queremos que tudo acabe, o mais breve possível, mas aqui há Cinema de tão alto nível que a experiência recompensa os corações bravos: Se para muitos haverá o Nada totalizante, após o lamento final, haverá para nós uma visão mais refinada sobre do que os melhores filmes são feitos, celebrando tensamente (durante e depois da sessão) a um dos grandes triunfos cinematográficos de 2016.