Cinema

[Crítica] O Lobo do Deserto

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O Lobo do Deserto 2

Baseada nos preceitos beduínos vigentes em 1916, e situada no território do Império Otomano, a história de O Lobo do Deserto remonta um drama de época sob os olhos de uma criança chamada Theeb (Jacir Eid Al-Hwietat), que tem por obrigação se instruir nos modos e ditames que a tradição de seus pais manda. Sua companhia em meio ao ambiente árido e desértico de sua vila, Wadi Rum, é seu irmão mais velho Hussein (Hussein Salameh Al-Sweilhiyeen), que tem a árdua tarefa de ensinar ao seu irmão os costumes de seus antepassados, sendo ele o mentor do garoto na ausência de seus pais mortos.

Theeb é um rapaz curioso, alegre e proativo que consegue driblar facilmente o ambiente repleto de conflitos bélicos que o cercam. Sua natureza aparenta em um primeiro momento ser bastante diferente da figura que traduz seu nome, tendo pouco a ver com o lobo que deveria preceder sua descrição. Não demora para um grupo de exploradores brancos encontrarem a dupla de irmãos, empregando Hussein para guiá-los até seu misterioso objetivo.

A intenção de Naji Abu Nowar é traçar um paralelo entre passado e presente, mostrando que aquelas terras da Jordânia permanecem seguindo a tradição de violência e morte que já a acometia quase cem anos antes, usando a jornada gananciosa capitalista como ponto de partida de sua crítica social, passando também por questões chave como invisibilidade social e a completa falta de inferência governamental sobre seus cidadãos, usando o território do deserto como avatar de uma terra sem lei, como era no Velho Oeste dos Estados Unidos em inúmeros filmes de John Ford.

O Lobo do Deserto 3

A face dura da guerra por terra e riquezas não demora a cortar o caminho de Theeb, tirando-lhe mais uma figura de autoridade, ainda que tal submissão tenha sido imposta. O sentimento de obrigação persiste, além da ação de revidar com tiros os ataques dos opositores, pondo de lado sua postura de fantasia infantil.

O revide provoca em Theeb o mesmo torpor causado nos adultos que o cegam, a mesma insana busca por mais justiçamento e pelo caminho menos virtuoso. O Lobo do Deserto tenciona ser um retrato de uma característica cabal de um povo que se vale da frieza para executar seus inimigos. No entanto, o conjunto de nuances prometido no começo do filme não é alcançado em plenitude, caindo ao final em um discurso reducionista, distante da boa premissa que se alardeava, ainda que não resulte em um filme fraco, em especial graças à dedicação da fotografia em planos que contemplam as planícies arenosas, que servem de lugar comum à jornada do garoto.

Filipe Pereira

Filipe Augusto Pereira é Jornalista, Escritor, quer salvar o mundo, desde que não demore muito e é apaixonado por Cinema, Literatura, Mulheres Rock and Roll e Psicanalise, não necessariamente nessa ordem.
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