Crítica | O Menino do Pijama Listrado

O Menino do Pijama Listrado, de Mark Herman, adapta o livro de John Boyne de uma forma terna e simples, explicando de maneira lúdica a dura realidade de quem viveu o auge do nazifascismo na Europa durante a ascensão de Hitler. O pequeno Bruno, de oito anos, vivido por Asa Buterfield é visto brincando com seus amigos, enquanto seus pais, Ralf (David Thewlis) e Elsa (Vera Farmiga) vivem seus dias normalmente. O fato deles serem pouco chamados pelos seus nomes reforça a ideia do drama ser contado pelos olhos do menino, que não faz distinção nominal e possui uma visão binária do mundo.

O ator mirim que três anos mais tarde protagonizaria A Invenção de Hugo Cabret está muito bem aqui, e parece ser o único em achar estranho a viagem da família para um cidade distante alemã distante da capital. Para as crianças filhas de oficiais alemães não houve grande mudanças quanto o seu dia a dia. O filme adota uma ótica interessante ao optar em narrar sua história do ponto de vista de Bruno, assim, se uma criança da idade do protagonista assistir ao filme, os nazistas serão os mocinhos dessa história, pelo menos até determinado trecho do longa.

Os extremismos são apresentados paulatinamente. Os ânimos se acirram com a chegada na nova residência, e a esposa percebe um distanciamento do marido. Toda a parte que toca os adultos é simplista e maniqueísta. Isso se reforça quando o pai de Bruno mente para o garoto e para o público sobre a necessidade de seu trabalho para a soberania do país e bem estar da família. A coisa se torna mais grave ao passo que Bruno percebe existem judeus trabalhando forçosamente em sua casa, com uniformes que ele confunde com pijamas.

De fato o foco narrativo infantil é bem mais rico, e a curiosidade do menino vira uma grande preocupação da mãe, ao ponto dela não perceber que ele faz amizade com outro menino, Shmuel (Jack Scanlon). Em contrapartida, sua irmã Grete (Amber Beattle) abraça cada vez mais a ideologia nazista, basicamente por carência e necessidade de aceitação, tal qual boa parte dos apoiadores da face mais moderna do fascismo atual, como já vimos em A Onda.

O longa de Herman é conhecido principalmente por seu final trágico e para sorte de sua trama, a riqueza dele mora na relação diferenciada de Schmuel e Bruno, mas se analisada pelo ponto de vista da mãe alemã, a cegueira que ela tem ultrapassa até a ideologia dos germânicos, pois seu precioso caçula é mais precioso inclusive que as crianças judias, e só pereceu ao ser convencido por essa criança “sorrateira”. É desonesto em um nível absurdo, e a máquina de matar e humilhar judeus não poderia parar sequer num dia de despedida da família que morava ali e que estava fazendo as malas, afinal, para o esforço de guerra, era de suma importância que os judeus soubessem de seu lugar, ainda mais com o avanço dos aliados. É preciso que se apele para uma das argumentações mais baixas, igualando um filho branco e ariano da potente nação alemã para entender o terrível drama do holocausto, e toda construção do suspense prova isso, toda a corrida em vão para salvar o menino é o castigo irônico que o destino dá a Ralf e Elsa, por terem sido mesquinhos, egoístas e abraçarem uma ideologia torta e assassina. O fato da história ser encarada por esse ponto de vista, abre uma linha de pensamento acessória, tal qual era o forte discurso da propaganda massiva de Joseph Goebbels.

O Menino do Pijama Listrado é um filme que emociona e evoca sentimentos de ternura, ódio e empatia, mas acerta principalmente por denunciar o quão egocêntrica era a classe média alemã, com apenas uma figura que discute as falas e ações de Ralf, e que rapidamente é calada, basicamente por pensar minimamente diferente do fuhrer e dos seus discípulos, além de conter grandes atuações sensacionais de Buterfield e Scanlon, e bandeira de que o homem é puro em seu estágio infantil, livre de preconceitos e pensamentos maléficos quando no início da vida.

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